OPINIÃO
Quando uma crise se torna oportunidade para o Governo
O ponteiro do combustível tornou-se, hoje, o verdadeiro marcador do humor de um país em decadência. Nas últimas semanas, o ritual de encostar num posto de gasolina deixou de ser uma rotina para se transformar num exercício de fé e, logo depois, de indignação.
A crise chegou como uma tempestade perfeita. Do nada surgiu o desabastecimento silencioso. Bombas lacradas, faixas decorativas e o eco constante do “não há combustível”. Será mesmo? De repente, quase todas as bombas de combustível ficaram desertas como o Saara. Aquele asfalto onde antes havia movimento passou a ser dominado por peões e ciclistas. E, noutro canto, floresceu o lado mais sombrio da necessidade: o mercado negro.
De repente, o galão de plástico virou artigo de luxo. Em esquinas estratégicas ou grupos de mensagens, o preço do litro dobrou, triplicou. O desespero de quem precisa do carro para trabalhar — motoristas, camionistas e moto-taxistas — alimentou o oportunismo de quem viu no caos uma mina de ouro. Ali, no câmbio negro, não há tabela nem ética; há apenas o preço que o desespero consegue pagar.
Mas o teatro das conveniências não parou por aí. Enquanto o cidadão comum lutava para descobrir como chegaria ao destino, o Governo observava de cima. Diz o ditado que nunca se deve desperdiçar uma boa crise. E não desperdiçaram.
Com o mercado oficial paralisado e o mercado negro a provar que “o povo paga qualquer valor se não tiver opção”, abriu-se a fresta perfeita. A lógica política é quase cruel na sua simplicidade: se o preço na rua já está absurdamente alto devido à escassez, um aumento oficial passa a ser visto quase como uma “normalização”. O Governo aproveitou o barulho dos tambores vazios para ajustar as suas próprias margens, empurrando o tecto um pouco mais para cima.
Afinal, na cabeça do gestor, é mais fácil aceitar um aumento de 20% vindo do Estado quando se está a fugir de um ágio de 100% vindo de um cambista à beira da estrada. Mas os mesmos que, há dez meses, reduziram o valor foram os mesmos que agora subiram o preço do combustível. Até porque eles não sentem essa sensação de fazer matemática impossível na bicha das bombas.
Nenhum engravatado sente o sufoco que o povo sente. Não importa se, durante as eleições, largam os seus afazeres para prometer algo que talvez nunca consigam cumprir.
Eles têm casa de borla, transporte de borla, cesta especial de borla e outros benefícios, sem contar que os seus salários ultrapassam os 150 mil meticais mensais. Nós, moçambicanos, sabemos que 10 mil meticais por mês não chegam para alimentar uma família, pagar renda e garantir a cesta básica. Quem sente o peso disso somos nós.
No fim das contas, o combustível tornou-se a história de um aperto de mãos invisível entre a crise e a conveniência. O cidadão, espremido entre a ilegalidade do galão clandestino e a legalidade da canetada oficial, continua a pagar a conta. O carro volta a andar, o motor ronca, mas o bolso, esse, continua na reserva.
-
SOCIEDADE6 meses atrásUniRovuma abre inscrições para exames de admissão 2026
-
SOCIEDADE2 anos atrásIsaura Nyusi é laureada por sua incansável ajuda aos mais necessitados e recebe título de Doutora
-
CULTURA2 anos atrásVictor Maquina faz sua estreia literária com “metamorfoses da terra”
-
DESPORTO2 anos atrásReviravolta no Campeonato Provincial de Futebol: Omhipithi FC é promovido ao segundo lugar após nova avaliação
-
OPINIÃO2 anos atrásO homem que só gostava de impala
-
POLÍTICA11 meses atrásGoverno de Nampula com nova cara: nove novos administradores e várias movimentações
-
ECONOMIA10 meses atrásGoverno elimina exclusividade na exportação de feijão bóer e impõe comercialização rural exclusiva para moçambicanos
-
OPINIÃO2 anos atrásDo viés Partidocrático à Democracia (Participativa)
