ECONOMIA

Condicionalismos de exportação podem afundar a maior produtora de castanha de caju

Publicado há

aos

O sector da castanha de caju em Nampula, historicamente a maior região produtora do país, atravessa um dos momentos mais críticos dos últimos anos, devido às restrições legais que impedem os agentes económicos de exportar o produto antes de Janeiro. A situação está a criar um bloqueio no escoamento da castanha, pressio nando os preços para baixo e colocando milhares de famílias produtoras à beira do colapso económico.

Segundo fontes ligadas ao sector e empresários ouvidos pelo Rigor, os preços começaram a subir no início da campanha, alimentando expectativas positivas entre produtores e comerciantes. O preço de referência foi fixado em 42 meticais, e até à semana passada o quilo chegou a ser vendido a 65 meticais. No entanto, esta semana caiu para 55 meticais  e,  pode continuar a descer nas próximas semanas.

“Os preços estavam a subir, mas porque nestes dias os armazéns estão cheios já não há comprador e o preço baixou”, relatou um operador. “E pode baixar ainda mais.”

As causas desta queda abrupta são atribuídas ao paradoxo legal que marca o sector: os comerciantes compram grandes volumes de castanha, mas são proibidos de exportar antes de Janeiro, período definido pela legislação que privilegia o abastecimento da indústria nacional. Na teoria, a regra visa fortalecer as fábricas locais; na prática, o cenário é inverso — muitas indústrias não têm capacidade financeira para comprar ou processar o produto, levando a castanha acumulada a correr risco de deterioração.

Empresários afirmam que o excesso de produto nos armazéns e a impossibilidade de exportar está a estrangular os operadores mais pequenos. Poucos estão a comprar nestes últimos dias, empurrando os preços para baixo e deixando as comunidades com castanha sem saída.

A fragilidade da indústria local já tinha sido denunciada  em Julho, quando da realização da FENA, pelo então Conselho Empresarial de Nampula (CEP), Mohomed Yunuss, (https://jornalrigor.co.mz/empresarios-pedem-resgate-urgente-da-industria-da-castanha-de-caju-em-nampula/), apelou há meses para um resgate urgente da fileira. O CEP alertara que as fábricas encerradas, a perda de postos de trabalho e a incapacidade de processamento local estavam a empurrar o sector para um ponto de ruptura.

Durante a abertura da VI edição da Feira Económica de Nampula (FENA 2025), realizada em Julho, o secretário de Estado do Comércio, António Jorge do Rosário Grispos, introduziu medidas que alteram a dinâmica do mercado agrícola. “Não existe cota neste país. Isso é para toda a gente. Quem tiver um camião, pode vender”, garantiu, declarando o fim definitivo da exclusividade e das cotas na exportação do produto. Acrescentou ainda que, a partir de 1 de Janeiro, “o comércio rural será exclusivo para moçambicanos”, reforçando a protecção da economia nacional.( https://jornalrigor.co.mz/governo-elimina-exclusividade-na-exportacao-de-feijao-boer-e-impoe-comercializacao-rural-exclusiva-para-mocambicanos/)

As posições assumidas em Julho voltam agora ao centro do debate, numa altura em que se questiona se as reformas e a crise crescente no caju não exigem uma abordagem integrada. Yunuss tinha pedido que o Governo resgatasse a indústria da castanha, e a actual queda dos preços demonstra que o sector continua à espera dessa resposta.

Enquanto isso, os produtores mantêm castanha estocada, sem compradores, sem indústrias operacionais e sem possibilidade de exportar. Caso nada mude, a maior região produtora do país poderá enfrentar uma perda substancial de rendimento e deterioração de qualidade de centenas de toneladas de castanha, um golpe que pode comprometer toda a campanha de 2025. Faizal Raimo

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Mais Lidas

Exit mobile version