OPINIÃO

Veneno que cura os bolsos dos tiranos

Publicado há

aos

Nas prateleiras das farmácias públicas, o tempo já corre ao contrário. O remédio que deveria salvar vidas chega com a certidão de óbito carimbada na própria embalagem: vencido. É o cúmulo do cinismo e da falta de comprometimento estatal entregar a quem sofre um frasco de esperança fora do prazo, um comprimido programado para matar. O Governo, na sua letargia burocrática, transforma farmácias populares em depósitos de lixo químico. Distribuir medicamentos vencidos não é um erro de logística. É um atentado à dignidade humana. Mas quem os irá punir?

O teatro do absurdo tem um segundo acto ainda mais cruel. Enquanto o cidadão comum recebe o refugo do tempo, o lote bom, o medicamento de ponta, desaparece. Some nos meandros da corrupção, desviado para alimentar clínicas privadas ou o mercado negro da sobrevivência. O insumo pago com os impostos do trabalhador transforma-se em moeda de troca política ou lucro fácil nas mãos de criminosos de colarinho branco. Retiram o antibiótico da criança com febre alta na fila para engordar contas bancárias ocultas.

Esta dinâmica desenha o retrato de um Estado necrofílico. De um lado, a negligência que deixa expirar a cura; do outro, a ganância que rouba o tratamento. Quem está no topo não consome a própria incompetência; trata-se em hospitais privados com o dinheiro do desvio. Quem está na base engole o descaso ou morre de mãos vazias. A distribuição de medicamentos vencidos e os desvios contínuos não são simples falhas do sistema. São o sistema a funcionar exactamente como foi concebido por quem despreza a vida humana.

É possível ver filas que contornam quarteirões sob um sol impiedoso para, no fim, ouvir que não há paracetamol ou receber um produto fora do prazo. Parem de humilhar o povo. Mulheres de mãos calejadas, idosos de pernas trémulas e pais que carregam nos braços o peso da febre dos seus filhos esperam pela única coisa que o Estado lhes deve por direito, paga com o suor de cada imposto cobrado: a saúde. Mas o que o regime entrega ao balcão da farmácia pública não é a cura; é o escárnio. É um frasco com a validade vencida, o refugo de um depósito central que preferiu ver o medicamento apodrecer a salvar vidas.

Enquanto a nossa gente agoniza, os porões da burocracia alimentam um mercado paralelo de sobrevivência e privilégio. Nos bastidores dos hospitais, onde os olhos da população não alcançam, caixas de medicamentos de última geração — aqueles que deveriam aliviar a dor ou travar uma infecção — desaparecem no banco traseiro de viaturas oficiais. São desviadas para clínicas privadas, vendidas no mercado negro ou reservadas para garantir o bem-estar dos que governam. O regime rouba ao pobre o direito de respirar para financiar o conforto dos seus protegidos.

Este Governo não é apenas incompetente; revela traços de perversidade institucional. A escassez e o veneno distribuídos nas periferias tornam-se instrumentos de controlo social. Um povo que passa o dia a implorar por um comprimido de paracetamol vencido dificilmente encontra forças para erguer a cabeça e questionar a tirania. Os tiranos sabem disso. Tratam as suas doenças em hospitais privados ou estrangeiros, protegidos por sistemas que eles próprios ajudaram a construir, enquanto observam, através de janelas de vidro, o cortejo fúnebre dos filhos da pátria.

Para eles, a vida do trabalhador vale menos do que o carimbo de uma licitação fraudulenta. Mas a paciência de quem tudo suporta também tem prazo de validade. O silêncio que hoje habita os corredores frios dos hospitais públicos não é de submissão; é o silêncio que antecede a tempestade.

O povo, cansado de engolir a negligência e de ver pais, mães e filhos tombarem por falta de um medicamento que foi roubado ou deixado vencer, começa a perceber que a caneta do opressor só tem poder enquanto lhe for permitido. O frasco vencido e o desvio criminoso não serão esquecidos. São o combustível do desgaste de um regime, escritos com o sofrimento de uma gente que se cansou de morrer de mãos vazias e decidiu exigir de volta a sua dignidade.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Mais Lidas

Exit mobile version