OPINIÃO
Vamos continuar a construir a democracia sobre o sangue?
Viver em Moçambique, nos últimos tempos, é caminhar sobre um tabuleiro de xadrez onde as peças não são movidas pela estratégia, mas derrubadas por projéteis de calibre desconhecido, disparados por rostos que nunca chegam a ter nome. São tiros aqui, tiros lá e mais acolá. O som das balas tornou-se a banda sonora de uma democracia que, no papel, é jovem e promissora, mas, na prática, parece um rascunho mal escrito e constantemente rasurado pela violência.
O que mais assusta não é apenas o acto da morte em si, embora a perda de figuras desta pátria amada sangre o coração da nação, mas o vazio que se segue. O silêncio das autoridades é um abismo. As investigações que nunca concluem nada, as perícias que insultam a lógica com explicações mofadas sobre “crimes passionais” em cenários de execução militar, e a impunidade que serve de combustível para o próximo gatilho. Quando o Estado falha no seu dever mais básico de proteger a vida e de punir quem a ceifa, assina uma declaração de incompetência.
Essa cultura do abate transferiu-se das esferas do poder para o homem comum. O povo, farto de ser a vítima silenciosa, virou o espelho da agressividade que o rodeia. Hoje, Moçambique é um nervo exposto. Qualquer faísca vira incêndio; qualquer discórdia vira linchamento; qualquer manifestação, que deveria ser a festa da cidadania, transforma-se num campo de batalha. Tornámo-nos um povo reactivo porque o diálogo foi assassinado algures entre uma promessa eleitoral e um cano de espingarda.
Não se constrói uma casa sólida sobre areia movediça, muito menos sobre corpos. Uma democracia que se alimenta da eliminação física do adversário não é democracia; é uma tirania disfarçada de pluralismo. Estamos a criar uma geração que cresce a acreditar que a política se faz com pólvora e que a justiça é algo que se conquista no grito ou na pedra, porque as instituições de Direito decidiram entrar num sono profundo e conveniente.
Precisamos, urgentemente, de parar de normalizar o horror. Não podemos aceitar que “morrer por ideias” seja uma cláusula inevitável do contrato social moçambicano. A democracia deveria ser o espaço onde as ideias lutam, para que as pessoas não precisem de lutar. Mas, enquanto o esclarecimento for uma miragem e a bala for o argumento final, continuaremos a ser um país de órfãos, a enterrar os nossos melhores filhos enquanto os culpados brindam à nossa amnésia colectiva.
O sangue que corre hoje não aduba a liberdade; apenas torna a terra mais escorregadia para quem tenta caminhar direito. Moçambique precisa de paz, mas não da paz dos cemitérios. Precisa da paz de quem sabe que pode falar, discordar e chegar a casa vivo. Sem isso, não temos um país. Temos apenas um mapa manchado de vermelho, à espera da próxima vítima.