OPINIÃO

Um país à espera de transporte digno e de liderança com rumo claro

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Diz-se que um dia, em pleno entroncamento de um bairro de Nampula, um velho apareceu com uma mala de cartão, garrafa de água na mão, e sentou-se num banco de cimento.

— “Tio, tá à espera de quê?” — perguntou uma jovem curiosa.

— “Do comboio do progresso, minha filha. Disseram que ia passar por aqui… ainda nos anos 80.”

Riram-se todos à volta. Mas o velho nem piscou o olho.

— “Ouvi na rádio. Discurso bonito. Disseram que estava prestes a chegar. Só que eu vim esperar cedo, para garantir lugar.”

Dias passaram. A mala do velho virou banco. Trouxe até sombrinha. E virou atracção do bairro. Crianças vinham brincar de “estação do progresso”, vendedores aproveitavam para montar barracas ao lado, e o velho virou uma espécie de mascote nacional: “o passageiro do comboio que nunca chegou.”

Um dia, um político em campanha parou por ali. Viu o velho, apertou-lhe a mão e disse:

— “Estamos a trabalhar para melhorar o serviço. O comboio vem aí, com Wi-Fi, ar-condicionado e janelas que fecham!”

O velho olhou para ele com calma:

— “Ah, então o comboio já vem com desculpas de origem. Só falta trazer futuro como bagagem.”

Desde então, toda vez que há um discurso sobre “arrancar com o desenvolvimento”, alguém no bairro pergunta:

— “Mas arrancar de onde? Ainda estamos à espera da estação…”

Enquanto o mundo acelera, avança e transforma, Moçambique permanece numa paragem incerta, à espera de embarcar num comboio que parece ter partido sem nós. A metáfora do comboio do progresso ilustra bem a frustração de um povo que vê outros países a seguir viagem, a construir futuro, enquanto aqui ainda lutamos para garantir o básico: estradas decentes, transportes eficientes, infraestruturas que conectem nossas comunidades e oportunidades reais para todos.

Não ter uma estação digna é o reflexo da falta de investimento consistente e da ausência de uma liderança clara que trace um rumo seguro para o país. É como se estivéssemos à deriva, presos a decisões improvisadas e a políticas que não correspondem à urgência dos tempos. Enquanto o progresso se move a passos largos noutras partes, em Moçambique, o transporte público ainda é sinónimo de incerteza, de veículos velhos e insuficientes, de serviços que não respondem às necessidades do povo.

A falta de infraestrutura adequada não é apenas um problema logístico; é um obstáculo ao desenvolvimento económico, ao acesso à educação, à saúde e à justiça social. Um povo que não se move com facilidade tem o seu potencial limitado. Jovens, trabalhadores, agricultores, comerciantes, todos perdem oportunidades porque o país não lhes oferece meios para se deslocar com segurança e rapidez.

O comboio do progresso já partiu, mas a verdadeira questão é: quem vai garantir que Moçambique construa a sua estação? A resposta está na liderança, na coragem política para abandonar práticas do passado, na transparência e na capacidade de implementar planos que tenham impacto real e duradouro. A liderança que o país precisa é aquela que não apenas fala de desenvolvimento, mas que age com determinação para que o transporte deixe de ser um sonho e se torne realidade.

Moçambique merece um futuro onde o povo não espere mais em plataformas vazias, onde o transporte digno não seja privilégio de poucos, mas direito de todos. Um futuro onde o comboio do progresso possa não só passar, mas fazer paragem prolongada para que cada cidadão possa embarcar com esperança e confiança.

É urgente romper com o ciclo do abandono e da procrastinação. O mundo avança, e o tempo não espera por quem fica para trás. Se Moçambique quer realmente crescer, precisa levantar-se, construir a sua estação e garantir que, daqui em diante, o seu comboio não parte sem o povo, mas parte com ele, unido e preparado para os desafios do futuro. E mais não disse!

 

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