SOCIEDADE
Sociedade civil no norte alerta para paz frágil em Moçambique
Três décadas após a assinatura do Acordo Geral de Paz, em 1992, em Roma, vozes da sociedade civil no norte de Moçambique consideram que o país vive uma paz frágil, marcada por períodos de estabilidade intercalados com tensões políticas, crises sociais e conflitos armados.
Representantes de diferentes sectores convergem na ideia de que Moçambique ainda não atingiu uma paz positiva, entendida como a garantia plena de direitos, justiça social e desenvolvimento sustentável.
Em Pemba, capital da província de Cabo Delgado, Fidel Terenciano, activista da sociedade civil, afirma que o país continua a viver sob instabilidade pós-eleitoral. “A nossa paz tem 13 anos e meio de convivência normal, mas sempre com um ano e meio de grandes conflitos. Conseguimos algum equilíbrio político, social e económico, mas este é constantemente interrompido. A paz não é apenas o cessar das armas: existe a paz negativa, que é ausência de guerra, e a paz positiva, que se traduz na garantia de dignidade. Se um cidadão passa o dia inteiro com fome, ele não está em paz”, alertou.
Fidel Terenciano
De Nampula, Marlene Julane defende que a reflexão deve ser profunda e colectiva: “O país enfrentou várias crises socio-políticas, mas agora é hora de jovens, mulheres e adultos unirem esforços para preservar este bem precioso. Um país em permanente instabilidade militar não progride, e isso afecta directamente o desenvolvimento nacional. O extremismo violento no norte mina os alicerces da paz”.
Marlene Julane
Já em Angoche, Júlio Custódio considera que o processo democrático ainda não correspondeu às expectativas. “Desde 1992, vivemos momentos de tensão política. A descentralização era desejada por todos, mas não trouxe ainda a paz efectiva. A paz não se resume a proclamações políticas, é um conjunto de fenómenos que precisam de ser garantidos”, frisou.
Júlio Custódio
A juventude, que constitui mais de metade da população, surge como actor estratégico. Para Geralda Hermínio, “Moçambique necessita despertar e erguer-se rumo a uma paz verdadeira. Os nossos irmãos em Cabo Delgado continuam a sofrer ataques, enquanto a maioria dos moçambicanos reclama das condições de vida. Precisamos agir, sobretudo como jovens, através de advocacia e participação activa”.
Do Niassa, Salvador Ângelo recorda que a instabilidade afecta o país como um todo. “Moçambique vive momentos de calma em algumas regiões, mas Cabo Delgado e Niassa continuam afectados. Se uma província sofre, todo o país sofre. Estamos a viver uma paz paralítica, incompleta, que está longe da paz que o mundo desejaria para nós”, declarou.
Salvador Ângelo
As diferentes vozes convergem na mesma ideia: Moçambique não deve contentar-se com a ausência de guerra. É preciso avançar para uma paz positiva, onde segurança, justiça social, democracia inclusiva e desenvolvimento económico caminhem juntos. O silêncio das armas deve ser acompanhado pela satisfação das necessidades básicas, pelo fortalecimento das instituições democráticas e pela redução das desigualdades. Assane Júnior