OPINIÃO
Será que estamos a viver o novo corinto?
Nampula, a nossa linda cidade, o coração do norte de Moçambique, está a mudar. Mas infelizmente, não está a mudar para melhor. Está a tornar-se uma cidade onde a juventude, em especial as raparigas, está a perder-se no mundo da prostituição. E o pior de tudo é que esta prática está a ser aceite como se fosse coisa normal. Como se fosse parte da vida. Quem caminha pelas ruas de Nampula ao cair da noite sabe do que estou a falar. Não é invenção. Não é exagero. É a verdade. Basta passar por zonas como Muahivire, Faina, Carrupeia, Murrapaniua, Mutaunha, e até no centro da cidade. Vêem-se meninas muito novas, adolescentes com idade de estar na escola, com roupas curtas, maquilhagem pesada, telemóveis na mão, a fazerem pose como se fossem modelos. Mas não estão ali por brincadeira. Estão à espera de homens que lhes dêem dinheiro em troca do corpo.
Muitas dessas meninas têm 14, 15 ou 17 anos. E a maioria ainda vive com os pais, mas saem de casa dizendo que vão a casa de amigas, ou inventam qualquer coisa. E os pais acreditam. Mas na verdade, elas estão a ir para prostíbulos, bares, lugares escondidos, para se deitarem com homens mais velhos, muitos deles com idade para serem seus pais ou avôs. E porquê? Por causa de dinheiro. Por causa de uma refeição paga num restaurante. Por causa de um telemóvel moderno. Por causa de 200, 500 ou 1.000 meticais que lhes permitem comprar extensões, unhas de gel, roupas da moda ou pagar pacotes de dados para ficarem a postar nas redes sociais.
Vivemos tempos difíceis. A moral perdeu-se. Já não há vergonha. Já não há temor. E isto não é só culpa das raparigas. É culpa da sociedade toda. Os pais deixaram de acompanhar os filhos. As mães já não fazem perguntas. Os professores ignoram. Os líderes religiosos calam-se. Os homens mais velhos, que deviam proteger, são os primeiros a abusar. E então eu pergunto: Nampula está a transformar-se em quê? Será que não estamos a viver uma nova versão da antiga cidade de Corintos?
Na Bíblia, Corintos era uma cidade rica, movimentada, cheia de comércio. Mas também era conhecida por ser um lugar de muito pecado. Prostituição era normal. O corpo não tinha valor. As pessoas viviam para o prazer, esqueciam-se de Deus, vendiam-se por tudo e por nada. Havia templos onde as mulheres se prostituíam como parte de um culto. O que hoje nos parece chocante, lá era normal. Tal como agora em Nampula, onde cada vez mais meninas vendem o corpo e já ninguém parece espantado.
O apóstolo Paulo escreveu cartas aos Coríntios a pedir mudança. Chamava o povo ao arrependimento. Dizia: “O vosso corpo é templo do Espírito Santo. Não se vendam. Respeitem-se.” Mas hoje, parece que essas palavras já não têm força. A Bíblia já não é guia. A palavra de Deus já não toca. As pessoas preferem seguir o dinheiro, mesmo que para isso tenham que destruir o corpo, a alma e o futuro. Vemos meninas a trocarem dignidade por um prato de frango frito. A aceitarem dormir com homens casados em troca de mil meticais. A deixarem-se fotografar nuas para vídeos que depois são espalhados em grupos de WhatsApp. Algumas até se envolvem em rituais estranhos para “atrair clientes”. Isto não é vida. Isto é destruição.
E no meio de tudo isso há homens muitos com título de “chefe”, “doutor” ou “empresário” que se aproveitam desta situação. Vão buscar as meninas nas esquinas, levam-nas para os seus carros ou casas alugadas e depois ainda se gabam entre amigos. Dizem: “ela é barata”, “ela não fala muito”, “é menor mas é boa”. Estes homens deviam estar na cadeia. Porque estão a destruir vidas. Estão a violar meninas. Estão a corromper a juventude. E não pensemos que estas meninas vão sair disto ilesas. Muitas acabam grávidas, sem saber quem é o pai. Outras contraem doenças. Outras acabam no álcool, nas drogas, e algumas até perdem a vida. E depois vêm os funerais de adolescentes, as lágrimas dos pais, os gritos de desespero. Mas onde estavam esses pais antes? Onde estavam as igrejas? Onde estavam os vizinhos?
Temos que parar com esta hipocrisia. Fingimos que está tudo bem, mas não está. Fingimos que é normal, mas não é. Fingimos que é escolha delas, mas muitas vezes é desespero. Outras vezes é pressão das amigas. Outras, são mesmo aliciadas por tios, primos ou vizinhos mais velhos. Esta cidade precisa de se levantar. Não com armas. Mas com consciência. Com valores. Precisamos de pais que falem com os filhos. Mães que olhem para as filhas com atenção. Igrejas que deixem de pregar só sobre dízimo e falem sobre moral, respeito, pureza. Precisamos de escolas que eduquem para a vida, não só para passar exames. Precisamos de homens que saibam dizer “não” a uma menor, mesmo que ela se ofereça.
A juventude precisa de oportunidades, mas também de orientação. Não podemos continuar a criar uma cidade onde vender o corpo seja visto como “solução”. Porque isso só vai criar dor, arrependimento, e um futuro cheio de traumas. Estamos a viver um novo Corintos? Talvez sim. Mas ainda vamos a tempo de mudar. De proteger as nossas filhas. De ensinar os nossos filhos a respeitar. De resgatar esta cidade das mãos da escuridão.
A Bíblia diz: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém.” Nem tudo o que dá dinheiro é digno. Nem tudo o que é fácil vale a pena. E para quem acredita, Deus ainda fala. Deus ainda perdoa. Deus ainda chama. Mas temos que ouvir.