POLÍTICA
“Sem Deus, nenhum acordo trará paz duradoura em Moçambique”, advertem líderes religiosos
Num momento em que o país se encontra à beira de um novo acordo no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo, líderes religiosos em Nampula advertiram que a paz em Moçambique não será duradoura se não for acompanhada por um compromisso espiritual com Deus. As declarações foram feitas durante um encontro inter-religioso organizado pela Comunidade de Santo Egídio, por ocasião do XXXIII aniversário da assinatura do Acordo Geral de Paz de Roma.
O delegado provincial do Conselho Islâmico de Moçambique (CISLAMO), Sheik Abdul Magid, e o missionário católico Padre Abel Sicanso alertaram que a paz não pode ser reduzida a documentos políticos: é um dom divino, construído diariamente com valores espirituais, justiça, perdão e solidariedade.
Sheik Abdul Magid foi peremptório ao afirmar que os vários acordos assinados ao longo da história recente do país fracassaram por falta de honestidade e de compromisso com valores divinos. “Assinamos acordos entre pessoas, mas declaramos guerra contra Deus. Enquanto não assinarmos primeiro um acordo de paz com Deus, nenhuma paz humana terá sucesso”, advertiu.
Para o líder islâmico, a paz verdadeira não se resume ao calar das armas, mas nasce no coração e no espírito de cada cidadão. “Se alguém rouba, assassina ou comete injustiças, é porque espiritualmente não está em paz. A falta de paz espiritual é a raiz de muitos dos males que ainda enfrentamos como sociedade”, afirmou, lamentando que a dimensão espiritual da paz seja muitas vezes ignorada no debate político, quando deveria ser pilar fundamental de qualquer processo de reconciliação.
Na mesma linha, Padre Abel Sicanso defendeu que a paz deve ser entendida como um dom divino e não apenas como fruto de negociações entre homens. “A paz é o dom de Deus, mais do que algo negociado pelos homens”, afirmou, recordando a Carta de São Paulo aos Gálatas (5, 22-23), onde a paz surge entre os frutos do Espírito Santo, ao lado do amor, da alegria, da bondade, da fidelidade, da mansidão e do domínio próprio.
Segundo o sacerdote, a paz autêntica oferece coragem, serenidade e confiança mesmo em tempos de provação. “A paz procede tranquilidade em meio às tribulações, afasta o medo e proporciona silêncio interior para ouvir a Deus”, sublinhou. Para si, a paz não pode ser confundida com o silêncio forçado ou a simples ausência de guerra, mas deve ser cultivada diariamente no coração de cada cidadão.
Tanto Sheik Abdul Magid como Padre Abel Sicanso convergiram na ideia de que a responsabilidade de construir a paz pertence a todos — líderes políticos, religiosos e cidadãos. Ambos sublinharam que a reconciliação, o perdão, a partilha e a justiça social são caminhos indispensáveis para consolidar a independência e o futuro de Moçambique.
“A paz é um bem comum, sagrado e inalienável, que deve ser acarinhado. Todos nós temos de a proteger contra actos, palavras ou atitudes que possam pôr em causa a nossa convivência fraterna”, concluiu Sheik Abdul Magid. Já Padre Sicanso reforçou: “A verdadeira paz não se escreve apenas em documentos, mas constrói-se com gestos concretos de solidariedade e partilha”. Faizal Raimo