OPINIÃO
Se Calarmos Hoje, Amanhã Seremos Todos Passageiros no Atrelado
Disseram-nos que os tractores foram apresentados como solução porque não há estradas. Porque as vias nas zonas rurais estão esburacadas, partidas, intransitáveis. Disseram-nos que não há autocarros, que os camiões são perigosos, que as pessoas precisam de transporte, e que pobrezinhos de nós devemos agradecer o reboque que nos oferecem como se fosse ouro.
Mas a verdade é que não há estradas porque nunca investiram nelas.
Não há autocarros porque o dinheiro para os comprar foi parar a bolsos privados.
Não há alternativas porque a única prioridade de quem governa é manter-se no poder e alimentar o próprio luxo.
É fácil justificar a humilhação com a falta. Mas ninguém fala da causa dessa falta. Ninguém quer falar da corrupção. Da má gestão. Do roubo descarado. Da incompetência transformada em cultura.
Apresentaram os tractores com atrelado como se estivessem a anunciar uma inovação. Fizeram cerimónia, houve discursos, palmas, até bandeiras ao vento.
Mas não se trata de transporte. Trata-se de um insulto à dignidade humana.
Estão a dizer-nos, com todas as letras, que já não temos valor como pessoas.
Estamos a ser tratados como fardos. Como sacos de milho. Como gado.
E o pior: querem que fiquemos calados. Que aplaudamos. Que sorriamos e digamos “obrigado” por este favor.
Mas este favor tem nome: humilhação institucionalizada.
O Governo alega que não há estrada. E por isso o povo deve aceitar qualquer coisa. E nós perguntamos: onde foram parar os milhões destinados à construção dessas mesmas estradas?
Quantos quilómetros foram pagos mas nunca asfaltados?
Quantas obras foram inauguradas só no papel?
Quantas empresas de fachada engoliram o orçamento e desapareceram?
Não temos autocarros dizem.
Mas a cada campanha eleitoral, surgem promessas de transportes modernos, de melhoria da mobilidade, de ligação interprovincial.
Onde estão os tais 390 autocarros que o Ministério dos Transportes jurou entregar?
Será que também vão vir com atrelado?
Não temos alternativas dizem.
Mas o que vemos são viaturas de luxo com chapa do Estado circulando todos os dias.
O que vemos são delegações com motoristas pagos pelo povo, combustível pago pelo povo, viagens de lazer mascaradas de missão de serviço.
O que vemos são dirigentes que nunca pisaram uma estrada de terra batida, mas acham que o povo deve aceitá-la como caminho do progresso.
Talvez este seja mesmo o Moçambique que nos querem vender.
Um Moçambique onde o camponês vale menos que o trator.
Onde o povo anda à chuva, ao sol, ao pó e ao medo, enquanto os dirigentes circulam em vidros fumados, blindados contra a realidade.
Porque se calarmos hoje, amanhã seremos todos passageiros no atrelado.
Hoje começa com as zonas rurais.
Amanhã será nas vilas. Depois nas cidades.
Hoje é por falta de estrada. Amanhã será por falta de liberdade.
Hoje andamos de reboque. Amanhã seremos arrastados pela indiferença.
Se aceitarmos que é normal transportar pessoas em atrelados, amanhã também será normal termos salas de aula sem carteiras, tribunais sem justiça, eleições sem escolha.
Porque o reboque é apenas o símbolo visível de tudo aquilo que estamos a deixar arrastar.
Nós não somos carga. Não somos peso. Não somos fardo.
Somos cidadãos. Somos povo. Somos os donos desta terra.
E se nos metem num atrelado, é porque já não nos vêem como seres humanos.
E se nós aceitarmos calados, é porque já não nos reconhecemos como tais.
Este país é nosso. A estrada é nossa. O dinheiro é nosso. O futuro é nosso.
E por isso, não aceitamos um lugar no reboque da humilhação.
Não aceitamos andar puxados por um sistema que só sabe sugar.
Não aceitamos que nos transformem em sombra de gente.
Hoje é o tractor.
Amanhã será o retrocesso completo.
E se hoje ficarmos calados, amanhã já será tarde para gritar.