ECONOMIA
Sant’Egídio diz que África é violenta porque não respeita o povo
Mediador da paz em Moçambique diz que o diálogo nacional em curso no país é decisivo para consolidar a democracia.
A Comunidade Sant’Egídio considera que a instabilidade e a violência que assolam vários países africanos estão directamente relacionadas com o desrespeito pelas decisões democráticas e, sobretudo, com a não aceitação dos resultados eleitorais. A posição foi apresentada por Américo Sardinha, responsável da organização em Nampula, que defende que a paz, em Moçambique e no continente, depende da capacidade dos Estados respeitarem a vontade popular expressa nas urnas.
Segundo afirmou, muitos países africanos continuam a enfrentar dificuldades em adaptar-se às transformações políticas e sociais da actualidade. Parte desses desafios, sublinhou, resulta de modelos de governação que ainda não incorporam plenamente o princípio da alternância e a leitura dos “sinais dos tempos”.
“Na África temos muito que aprender e, infelizmente, estamos um pouco atrasados. Encontramos ainda muitos países governados pelos partidos libertadores. É bom que governem, mas é igualmente importante que compreendam as transformações que estão a acontecer. A leitura dos sinais dos tempos é fundamental — e a Igreja sempre nos ensinou isso”, explicou.
Recordando crises políticas recentes, incluindo episódios de tensão pós-eleitoral registados na Tanzânia, Sardinha alertou que a instabilidade tende a agravar-se sempre que a vontade popular é ignorada.
“A grande tarefa que se impõe à África é garantir que as decisões tomadas pelo povo sejam respeitadas. Sempre que isso não acontece, caímos inevitavelmente em ciclos de violência”, ressaltou.
Para o coordenador, a democracia no continente ainda enfrenta um longo percurso para evitar conflitos motivados por disputas eleitorais. “Quando não se respeitam as decisões tomadas pelas pessoas, criamos terreno fértil para instabilidades. África tem de trabalhar muito e tem de se aconselhar muito para mudar este cenário.”
Sobre o diálogo nacional inclusivo em curso em Moçambique, Sardinha destacou que a iniciativa representa um passo importante na consolidação da cultura democrática, realçando que nenhum sistema político subsiste sem mecanismos permanentes de escuta e concertação.
“Qualquer diálogo é sempre bem-vindo. É através do diálogo que se resolvem os conflitos. A Comunidade sempre defendeu que é necessário conversar e não vergar pela via da violência. Nesse sentido, olhamos o diálogo nacional como extremamente positivo”, concluiu. Vânia Jacinto