SOCIEDADE
Sanitários públicos de Nampula viram lixeira e casa de banho a céu aberto
Fechados há mais de um ano sob promessa de reabilitação, os sanitários públicos localizados na zona central da cidade de Nampula — junto ao Hospital Central e na entrada da estação ferroviária de Nampula (CFM) — transformaram-se em lixeiras a céu aberto e espaços improvisados para necessidades fisiológicas, num cenário que espelha o abandono da política de saneamento urbano por parte do município.
Segundo constatou o Jornal Rigor no local e através de múltiplos relatos de utentes, os sanitários foram encerrados logo após a tomada de posse do actual presidente do Conselho Municipal de Nampula, Luís Giquira, com a justificação de que seriam alvo de obras de reabilitação. Até hoje, nenhuma intervenção foi feita.
Sem opções viáveis, cidadãos recorrem a muros, acácias e até à parte externa dos próprios sanitários fechados para fazerem as suas necessidades. O resultado é visível: mau cheiro, lixo acumulado, urina a céu aberto e fezes humanas em pleno centro urbano.
“Esses sanitários foram activados na gestão do falecido presidente Amurane. Pagávamos entre 5 a 20 meticais para usá-los e o município arrecadava receitas. Agora, com o encerramento, ficámos sem opção. Algumas pessoas defecam mesmo ali porque não têm alternativa”, contou um mototaxista que opera próximo ao Hospital Central e preferiu manter o anonimato.
A situação agrava-se porque até alguns sanitários internos do Hospital Central de Nampula também estão inoperacionais, fazendo com que utentes da unidade hospitalar procurem soluções improvisadas nas imediações.
“Fecharam no início do mandato do Giquira, prometeram obras, mas nunca mais voltaram. Se não vão reabrir, deviam demolir, porque como está só piora. Continua-se a usar, mas sem higiene e sem dignidade”, lamentou a mesma fonte.
Acácias são utilizadas por munícipes para suprir necessidades biológicas
Sanitário abandonado, responsabilidade esquecida
No passeio da CFM, Arlindo Mugussede, um ancião que zela por um dos sanitários, relata que foi recrutado pela edilidade para cuidar do espaço — um esforço solitário diante do abandono.
“Chamaram-me para fazer a limpeza, mas nunca mais voltaram. Algumas pessoas ainda usam a parte de fora para defecar. Eu tento manter o espaço minimamente limpo, os vendedores até me ajudam com algum valor para evitar o mau cheiro”, explica Mugussede.
A cidadã Elsa Fernando confirma o cenário de desespero urbano. Ao procurar um banheiro funcional, percorreu vários pontos até recorrer à parte externa do sanitário fechado, com permissão do próprio zelador.
“Fui ao Mercado Central, mas o responsável tinha saído. Aqui estava fechado, mas não tive outra escolha. Usei mesmo aqui fora.”
Acácias e muros: os “sanitários” improvisados de Nampula
A falta de instalações sanitárias operacionais não se restringe aos dois locais mais visíveis. Muros, recantos e até acácias tornaram-se o novo refúgio para quem é surpreendido pela urgência fisiológica. A cidade, que enfrenta desafios históricos em saneamento básico, assiste à degradação daquilo que outrora funcionava com alguma dignidade e retorno financeiro para o próprio município.
“Eu vi pessoas a usarem e comecei também. Sei que é errado, mas como não tenho casa de banho fixa, acabo por usar este espaço sempre que passo por aqui”, assumiu Gildo Rodrigues, residente recém-chegado à cidade.
A crítica recai com mais força sobre a ausência de acção por parte do município, que não só falhou em reabilitar os sanitários como também não criou alternativas temporárias, deixando a cidade refém da insalubridade.
A cada dia, o centro de Nampula transforma-se numa paisagem de abandono, improvisação e exposição à doença, enquanto a população continua à espera de uma reabilitação que nunca começa. Daniela caetano