OPINIÃO
Quando o silêncio educa mal e o oportunismo destrói
Escrevo este texto não como alguém distante do problema, mas como alguém que o tem visto crescer à sua volta, nos bairros, nas conversas baixas, nas histórias contadas com vergonha e normalizadas com demasiada facilidade.
Tenho escutado mães, pais, tios e vizinhos a falarem de situações que deviam indignar-nos a todos, mas que, estranhamente, continuam a ser tratadas como “costumes” ou “saídas de emergência” para a pobreza. É a partir dessa inquietação que falo.
A educação sexual nas famílias moçambicanas continua a ser um território evitado. Muitos pais calam-se, outros empurram o assunto para a escola, para a igreja ou para o telefone da criança.
Enquanto isso, os filhos crescem rodeados de informação confusa, imagens descontroladas e conselhos perigosos. Quando a sexualidade não é explicada com verdade, responsabilidade e afecto, ela acaba por ser aprendida na rua, onde quase nunca vem acompanhada de valores.
O mais doloroso é perceber que, em algumas famílias, esse silêncio não é inocente. Há adultos que transformam a vulnerabilidade das filhas num negócio disfarçado de tradição ou “compensação”. Forçam narrativas, encenam situações, fabricam culpas e, no fim, apresentam uma lista de exigências materiais como se a dignidade de uma rapariga pudesse ser convertida em colchões, camas ou multas em dinheiro. Não é educação. Não é cultura. É exploração pura, travestida de costume.
Este tipo de prática não protege a rapariga. Pelo contrário, ensina-lhe uma lição perigosa: a de que o corpo pode ser moeda, a de que o erro rende, a de que a verdade é negociável. Alimenta o oportunismo, normaliza a promiscuidade forçada e cria uma relação doentia com a sexualidade, marcada pelo medo, pela culpa e pelo interesse material. Depois admiramo-nos quando crescem relações instáveis, gravidezes precoces, abandono escolar e ciclos repetidos de sofrimento.
Como sociedade, falhamos quando fechamos os olhos a isto. Falhamos quando rimos, quando dizemos “sempre foi assim”, quando preferimos o conforto da tradição mal interpretada à coragem de proteger os nossos filhos. A educação sexual começa em casa, sim, mas não começa com ameaças nem com esquemas. Começa com diálogo, com orientação clara, com respeito pelo corpo e pela mente da criança. Começa por ensinar que sexualidade é responsabilidade, não arma de chantagem.
Eu acredito que é possível fazer diferente. Já vi famílias simples, sem muitos estudos, a educarem melhor do que casas cheias de diplomas. Vi pais que sentaram os filhos, explicaram com calma, alertaram para riscos, falaram de limites e de respeito próprio. Nessas casas, não há medo da conversa. Há prevenção. Há confiança. E há menos espaço para oportunistas.
Precisamos de coragem para corrigir estas práticas, mesmo quando elas se escondem atrás da palavra “cultura”. Cultura que fere não é herança, é erro. Tradição que explora não é identidade, é abuso. Proteger as nossas raparigas é proteger o futuro do país. Ensinar educação sexual com verdade é salvar vidas, percursos escolares e sonhos que ainda nem tiveram tempo de nascer.
Escrevo isto com o peso de quem já viu demasiado cedo raparigas perderem a infância por decisões que não foram delas. E escrevo também com esperança. Porque quando uma família muda, uma comunidade começa a mudar. E quando a educação sexual deixa de ser tabu e passa a ser compromisso, o oportunismo perde força e a dignidade volta a ter valor.
Não podemos continuar a ensinar às nossas filhas que o corpo delas paga dívidas. Devemos ensiná-las que o corpo é delas, a vida é delas e o futuro também. E isso começa, sem desculpas, dentro de casa. E mais não disse!