OPINIÃO

Quando o controlo falha, o perigo entra pela cozinha

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O caso do óleo alimentar “Super Vega”, agora proibido pela INAE por ser produzido e comercializado de forma ilegal, levanta uma questão tão antiga quanto urgente: quem vigia o que comemos?

Durante meses — talvez mais de um ano — o “Super Vega” foi presença comum em mercados, feiras, pequenas mercearias e até armazéns em várias províncias. Vendido como óleo alimentar legítimo, com rótulo em português formal e selo “Made in Mozambique”, o produto circulou livremente entre bancas e prateleiras, sem qualquer certificação sanitária, sem controlo de qualidade, e fora do radar das autoridades reguladoras.

A reacção da INAE chega tarde. Tarde demais para quem já consumiu o óleo. Tarde demais para garantir que as normas mínimas de segurança alimentar foram cumpridas. Tarde demais para restaurar a confiança num sistema que deveria proteger os cidadãos dos perigos invisíveis — e, neste caso, engarrafados.

É grave que uma unidade económica clandestina, sem autorização do Ministério da Saúde, sem aprovação do conteúdo nutricional e sem direito ao uso da marca nacional, tenha conseguido operar com tamanha liberdade. Mais grave ainda é perceber que a primeira reacção das autoridades só veio depois de meses de venda e consumo em massa.

Neste caso, o perigo não veio disfarçado. Veio rotulado. E o Estado não viu.

A apreensão do produto e a suspensão da unidade de produção são medidas necessárias, mas não suficientes. É preciso esclarecer o que falhou: foram os mecanismos de vigilância? Os recursos limitados da fiscalização? A conivência de certos sectores? Ou um simples descuido institucional que nos expôs a um risco alimentar nacional?

O Jornal Rigor entende que o papel da imprensa não é apenas relatar os factos, mas perguntar onde os outros calam. E a pergunta central continua sem resposta: quem responde pelas falhas de um sistema que devia proteger o cidadão comum — o consumidor que acreditou, comprou e cozinhou com um produto ilegal?

O caso “Super Vega” deve ser um ponto de viragem. Um alerta. Um precedente. Porque da próxima vez, o preço da falha pode ser mais alto — e irreversível.

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