OPINIÃO

Quando a modernidade enterra a tradição

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Os tempos modernos são agressivos. São acelerados e inconstantes. Presenciei, com os meus próprios olhos, uma cena que me ficou marcada na alma. Foi num enterro, numa aldeia do interior de Yuluthi. A família juntara-se em peso, os vizinhos acorreram, mas faltava algo essencial: os rituais que, desde tempos imemoriais, davam sentido à partida de um ente querido. Não houve canto tradicional, não houve libação para os antepassados, não houve sequer a pausa sagrada para invocar a bênção dos mais velhos. Apenas palavras apressadas, telemóveis a filmar, e depois a dispersão rápida, como se se tratasse de mais uma actividade da agenda.

Olhei em volta e recordei como era noutros tempos. Vi funerais em que toda a aldeia se mobilizava. As mulheres entoavam cânticos de lamentação, os homens erguiam a pá com respeito, as crianças não iniciadas eram escondidas dentro das casas, as iniciadas observavam em silêncio para aprender cada pormenor, para saber que a vida é passagem e que cada morte é memória colectiva. Vi rituais de iniciação, em que o jovem saía transformado em adulto, carregando não apenas cicatrizes no corpo, mas sobretudo lições de vida na alma. Vi celebrações de colheita em que o milho e a mapira não eram apenas comida, mas oferenda e gratidão à terra que nos sustentava.

Hoje, tudo isso parece enterrado pela pressa da modernidade. Onde havia fogueira, há televisão. Onde havia batuque, há colunas de som com música importada. Os ritos de iniciação foram substituídos por simples circuncisão de sem nenhuma instrução. Muitos mortos são enterrados à superfície porque não há tempo para cavar muito a sepultura. Onde havia silêncio de respeito, há toques de telemóvel a interromper. E o que mais me entristece é perceber que os jovens já não sabem o porquê dos rituais, nem sequer se interrogam pela sua ausência.

Não sou contra o progresso. Sei que a vida muda, que os tempos exigem novas formas de expressão. Mas pergunto-me: de que serve a modernidade se, ao mesmo tempo que nos dá conforto, nos rouba a alma? Uma sociedade sem rituais é uma sociedade sem memória. É como uma árvore que floresce depressa, mas sem raízes profundas — qualquer vento a derruba.

Um dia, ao conversar com um adolescente sobre os ritos de iniciação, ele respondeu-me:

— Isso é coisa de antiguidade, tio. Hoje a nossa iniciação é internet!

Sorri por fora, mas chorei por dentro. Porque percebi que, sem rituais, a juventude cresce sem bússola, sem referência, sem ligação com os que vieram antes. A modernidade, que devia enriquecer a tradição, está a enterrá-la como se fosse um peso morto.

Escrevo esta crónica não para condenar, mas para despertar. Precisamos de encontrar equilíbrio. Precisamos de resgatar os rituais, não como peças de museu, mas como práticas vivas, adaptadas, capazes de dialogar com a modernidade sem se render a ela. Precisamos de ensinar aos jovens que os rituais não são atraso, mas herança; não são superstição, mas sabedoria colectiva. Não existe nenhuma tribo que vivendo na terra segue a cultura do céu, cmo muitos pretendem dizer. Os filhos da terra devem ser educados com a cultura desta terra.. no céu terão outras regras.

Enquanto ainda houver anciãos dispostos a transmitir, enquanto ainda houver memórias guardadas nas canções e nos provérbios, não é tarde demais. A modernidade pode até correr mais rápido, mas a tradição tem a profundidade que nos sustenta. E sem essa profundidade, corremos o risco de ser uma aldeia global sem rosto, sem voz e sem alma.

Lembro-me de uma anedota que aprendi com um velho de Musemèti, no Anchilo. Ele diz que quando era rapaz passou por rituais de iniciação que duraram 2 anos no mato. Havia cânticos, provérbios, provas de coragem, conselhos dos anciãos, e muito mais.

Um jovem, que bebia refresco e mexia no telemóvel, interrompeu:

— Vovô, isso de iniciação é perda de tempo. Hoje basta abrir uma conta no Facebook, e já és homem!

O velho riu-se, abanou a cabeça e respondeu:

— Se calhar tens razão, filho. Só que no meu tempo, depois da iniciação, sabíamos respeitar os mais velhos. No vosso tempo, depois do Facebook, só sabem respeitar os “likes”!

A igreja toda de Musemèti desatou a rir. Mas no meio do riso, ficou a lição: tradição não é atraso, é bússola para não nos perdermos na pressa da modernidade. E mais não disse!

 

 

 

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