OPINIÃO
Povo unido do Rovuma ao Maputo: a promessa que ainda precisa acontecer
Há versos que se cantam com o peito cheio. Outros, com o peito apertado. E há aqueles, como “que o povo unido do Rovuma ao Maputo nunca tema lutar contra as armas do inimigo”, que se cantam com esperança e desconfiança ao mesmo tempo. Porque encerram um desejo bonito, mas confrontam uma realidade teimosa. Passaram-se cinquenta anos desde que Moçambique ergueu a sua bandeira como pátria independente. Meio século. E continuamos, de certa forma, à espera de que esse povo, do Rovuma ao Maputo, encontre finalmente um caminho de unidade real, não apenas geográfica, mas política, social, económica e emocional. Haveria alguém duvidando disto? Só se estiver a viver noutro planeta, distante da terra.
O nosso hino nacional, “Pátria Amada”, é, talvez, o documento mais sincero das intenções fundadoras da nossa nação. Nele está a coragem, a dor, o sacrifício e o sonho de um povo que se libertou com as mãos calejadas e o coração a sangrar. Mas os hinos não se escrevem apenas para lembrar, escrevem-se para orientar. São bússolas. E se hoje voltarmos a cantar esses versos com atenção, talvez descubramos que ainda estamos a meio do caminho entre o que prometemos ser e o que realmente somos. O que nos falta para alcançar a meta?
Ser “povo unido” exige mais do que fronteiras comuns. Exige um projecto nacional partilhado e inclusivo. Exige sentir que as políticas públicas não conhecem províncias favoritas nem distritos esquecidos. Mas a verdade é que ainda vivemos num país partido por desigualdades. Há um Moçambique do cimento e outro do matope mais denso. Um Moçambique com sinal e outro sem rede. Um Moçambique que decide, e outro que obedece. Um Moçambique que enrique cada vez mais, e outro que é empobrecido e devastado diariamente sem piedade nem dor.
Do Rovuma ao Maputo, a paisagem muda, sim, mas a esperança devia ser a mesma. E não é. Porque nem todos têm acesso aos mesmos serviços, às mesmas oportunidades, ao mesmo futuro. A tal unidade que o hino exalta precisa deixar de ser figura de estilo e passar a ser prática de governo. Não pode permanecer como uma utopia. Porque, enquanto a criança da cidade estuda com tablet, em escolas privadas, e a da aldeia divide um lápis com três colegas ou estuda de baixo de uma árvore e sem esperança de carteiras, não estamos unidos. Estamos apenas juntos no mapa. A unidade nacional requer igualdade de direitos e benefícios; igualdade de oportunidades e sorrisos.
A parte do hino que fala de “lutar contra as armas do inimigo” precisa de nova tradução. Porque o inimigo já não usa farda. Usa silêncio, omissão, indiferença. Está nas escolas sem professores de qualidade e bem remunerados, nos hospitais sem médicos nem medicamentos, nos concursos públicos com vencedores já escolhidos e com afinidades pré-estabelecidas. Está no discurso que promete, sem cumprir e no orçamento que falha porque caiu no bolso alheio de um chefe, suposto libertdor da pátria. Está na normalização da pobreza como paisagem permanente e cartão de visita do nosso país.
E o povo, que deveria estar unido, vê-se dividido por culpa de um modelo que não escuta, que exclui, que classifica. As vozes dissidentes são tratadas como ameaça, quando deviam ser vistas como alerta. A crítica ainda é confundida com traição. E assim, a unidade torna-se uniforme. E uniformidade não é unidade, é medo. O que queremos, em Moçambique não é uniforme. Disso vestem as flores. As pessoas querem união na dignidade.
Mas nem tudo está perdido. O povo moçambicano é, por natureza, resistente. Criativo. Solidário. É povo que, mesmo cansado, ainda dança. Que, mesmo frustrado, ainda canta. Que, mesmo desapontado, ainda vota. Isso é força. Isso é base. E é sobre essa força que se pode reconstruir a tal unidade prometida.
Para isso, o Estado tem de reaprender a ser casa para todos. As políticas precisam ouvir o chão, e não apenas os gabinetes. O poder tem de se descentralizar de forma verdadeira, sem fazer da autonomia um presente envenenado. As instituições precisam ser lugares de justiça e não de privilégio. E os partidos devem servir ao povo, não o contrário, olhando apenas seus benefícios e interesses partidários. A soberania do povo não deve ser violada.
O povo unido do Rovuma ao Maputo não é apenas um verso bonito. É um programa de país. É um chamado diário à reconciliação com a verdade. É a lembrança de que nenhum progresso é autêntico se não for partilhado. De que nenhuma paz é sólida se não for justa. De que nenhum hino é sincero se não tiver eco no prato, na carteira, na sala de aula, na cama do hospital.
Por isso, ao entrarmos no segundo ciclo de cinquenta anos, temos uma escolha a fazer: continuar a repetir versos que não vivemos, ou fazer dos versos caminho a percorrer. O povo já mostrou que sabe lutar. Cabe agora aos que lideram mostrar que sabem servir.
E talvez aí, finalmente, possamos cantar o hino com o peito tranquilo. Não porque esquecemos as feridas, mas porque começámos a curá-las. E que, nesse dia, o povo unido do Rovuma ao Maputo não seja apenas sonho, mas realidade firme, construída a muitas mãos, com verdade, com justiça e com amor à pátria, essa que ainda nos pede mais do que memória: pede compromisso. E mais não disse!