OPINIÃO

Pode ser o último texto que assino, mas digam algo

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Pode ser mesmo o último texto que assino. E se for, que ele seja lembrado não como palavras de um jornalista, mas como grito de um país que não aceita o silêncio da impunidade. Digam algo!

Digam se Mbaruco e Chissale estão vivos ou se morreram. Digam antes que o país inteiro se acostume com o desaparecimento de jornalistas, antes que o medo vire rotina, antes que a coragem desapareça junto com eles.

Cinco anos se passaram desde que Mbaruco desapareceu. Meses desde que Chissale foi levado. E o que recebemos em troca? Silêncio. Um silêncio que não protege ninguém, que não respeita ninguém, que só serve para reforçar o poder de quem tem medo da verdade.

Se este país não quer jornalistas, digam. Digam para que possamos parar de fingir que ainda existe liberdade de expressão. Digam que investigar é pecado, que denunciar é sentença. Digam que informar não é bem-vindo. Porque até agora, cada jornalista sabe que qualquer palavra escrita pode ser a última. E, ao que parece, isso é exactamente o que se espera.

Eu conheço colegas que todos os dias arriscam suas vidas. Que escrevem com medo. Que escondem-se de ameaças veladas e olhares que matam antes de qualquer tiro. E ainda assim, eles continuam. Porque calar seria trair não só a profissão, mas a própria humanidade.

E Mbaruco e Chissale são a prova viva — ou morta — do preço que se paga por ser corajoso neste país.

Se eles morreram, que o país saiba. Que saibamos para que possamos chorar. Para que possamos transformar a dor em denúncia, a indignação em acção, o medo em resistência.

Se estão vivos, que sejam encontrados. Que a verdade venha à tona. Que ninguém mais viva à mercê de um Estado que escolhe o silêncio em vez de justiça.

Pode ser o último texto que assino, mas não vou calar enquanto o silêncio do Estado tenta nos matar todos. Cada palavra que escrevo pesa o dobro do medo que sinto.

O silêncio que mata não é apenas do governo. É de todos que fingem que está tudo bem. É de quem fecha os olhos para o desaparecimento de jornalistas. É de quem se acomoda, dizendo que “não é problema meu”. Mas é problema de todos nós. Porque enquanto ninguém responde, todos nós estamos ameaçados. Todos nós estamos sob risco.

Então digam algo! Digam antes que outros desapareçam. Digam antes que a coragem seja extinta. Digam antes que Moçambique se transforme num país onde informar é condenação, onde a verdade é um risco e o silêncio é lei.

Pode ser o último texto que assino, mas que ele seja também um chamado à consciência, à coragem, à acção.

Pode ser o último texto que assino, mas que ele seja impossível de ignorar.

Pode ser o último texto que assino, mas que diga, alto e claro: digam algo por favor! Antes que desapareçamos todos com eles.

 

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