SOCIEDADE
Padre Kwiriwi defende que a reconstrução da confiança nas Forças de Defesa exige valores e presença activa do Estado
O Padre Kwiriwi Fonseca, da Diocese de Pemba, considera que a preferência de comunidades de Cabo Delgado pela presença de militares ruandeses, em detrimento das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), é um sinal evidente da perda de confiança da população nos seus próprios militares.
Segundo o sacerdote, esta perda de confiança revela fragilidades na relação entre as FADM e o povo, que deveria ver nelas o garante da ordem, da segurança e da paz. “Quando há uma falha, o povo já não respeita. Isso mostra a dificuldade da relação entre os militares moçambicanos e a população. É urgente resgatar os valores e os princípios daquilo que cada militar jurou: defender a pátria”, afirmou.
Para Kwiriwi, não basta a presença pontual das autoridades em momentos de crise. O Estado precisa de estar permanentemente próximo das comunidades. “Em lugares de sofrimento, não adiantam palavras. As pessoas querem acções. É necessário que as instituições se façam sentir e deem respostas concretas”, sublinhou.
O padre destacou ainda que o apelo ao regresso das populações às suas aldeias de origem só será eficaz se houver garantias de paz e segurança. “Enquanto continuarem os ataques, as pessoas vão ter medo. É legítimo perguntar por que razão os ruandeses são amados e os filhos da própria nação não são”, questionou.
Na sua análise, o sacerdote admitiu que podem existir falhas de ambas as partes: militares que não honram o compromisso de representar o Estado e manifestantes que, por vezes, podem ser manipulados ou infiltrados. Defendeu, por isso, a necessidade de criar um pacto de respeito, tolerância e boa convivência. Kwiriwi alertou também para a importância de programas de desenvolvimento sustentável que devolvam dignidade às famílias deslocadas.
“Não adianta apenas distribuir comida. É preciso criar projectos que gerem rendimento, que ocupem as pessoas em negócios e actividades produtivas. Só assim será possível manter o respeito e reconstruir a confiança”, frisou, lembrando que até os apoios internacionais já estão a ser reduzidos.
O sacerdote concluiu defendendo que a paz em Cabo Delgado só será consolidada quando as FADM reconquistarem a confiança do povo. “Não se pode negar a presença de militares nacionais, preferindo os ruandeses. É urgente restaurar essa relação, para que a população veja nos seus soldados um verdadeiro símbolo de protecção e segurança.” Faizal Raimo