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Padre José Luzia denuncia invasão dos espaços da Igreja e acusa silêncio cúmplice dos competentes poderes do Estado

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O padre José Luzia, um bem conhecido missionário Igreja Católica em Nampula, denunciou, em entrevista à RTVE, na semana passada, a onda de ocupações ilegais de terrenos pertencentes a instituições católicas de Nampula. Ele aponta o silêncio das autoridades e a sua aparente apatia como hipótese de “uma mão escondida do partido no poder” nesta onda de invasões, alertando, também, para uma grave crise de autoridade em Moçambique.

“Estaremos a assistir a uma invasão organizada dos terrenos da missão católica. Populares aparecem com marretas, catanas, e ameaçam os padres e os animadores locais. Dizem que precisam de terra. No entanto, rumores nos chegam dizendo que alguns desses espaços – talhões – já foram vendidos. Ora, é sabido, e bem à vista de toda a gente, que os espaços da Missão sempre estiveram ao serviço do povo. Basta olhar o que há de escolas, centros de saúde e projectos sociais. E até disponibilização de terrenos para habitação. Está tudo bem patente na Missão do Marrere. O que mudou agora?”, questionou o padre Zé Luzia, visivelmente indignado.

Segundo o padre, os espaços invadidos incluem áreas da missão de Marrere, o mosteiro Mater Dei e o seminário, numa sequência de ocupações que parecem ser acção “de forma organizada”. “O poder político está ausente. Onde está o município? Onde está a polícia? Será que não há Estado quando se trata de proteger a Igreja?”, lançou.

O sacerdote vai mais longe e levanta a possibilidade de as invasões estarem relacionadas com as críticas feitas recentemente pelo arcebispo Dom Inácio Saúre. “Parece que há uma mão escondida, talvez ligada a interesses políticos, a querer atacar sistematicamente a Igreja. Talvez essas invasões sejam uma reacção contra as intervenções do arcebispo. Porque ele tem falado. Tem alertado o país sobre os caminhos errados que estamos a tomar.”

Luzia critica ainda a falta de coragem das autoridades para proteger estes espaços da Igreja, contrastando com a repressão aos protestos, sobretudo de jovens, nas manifestações pos-eleitorais. “Os próprios agentes da polícia dizem que têm medo. Medo de intervir. Mas onde estava esse medo quando se lançaram contra jovens manifestantes? Agora, quando os nossos espaços estão a ser invadidos?”

Rejeitando acusações de egoísmo contra a missão, o padre recorda que a Igreja tem um legado sólido de serviço público. “A missão sempre partilhou. Fundámos escolas, clínicas, centros para jovens. Ceder terrenos não é problema. Mas tem de haver ordem, diálogo, respeito. O que está a acontecer agora é desorganização aparentemente promovida por quem devia garantir a paz.”

Numa nota final, o sacerdote lança um apelo directo ao poder político e traça um retracto sombrio do momento actual: “Ou o poder político retoma os sonhos de Samora Machel, de uma pátria justa, organizada e unida, ou vamos todos afundar no caos. O Estado está a perder autoridade. E quando o povo percebe isso, instala-se o vale-tudo.”

“O que vemos é o poder a ceder espaço aos marginais. Os polícias dizem que têm medo. Medo de quem? Usaram gás lacrimogéneo contra estudantes, mas agora não conseguem agir diante de invasores?”, rematou.

“A tarefa urgente do Estado moçambicano é repor o respeito e a dignidade da autoridade desgastada por sua própria culpa durante as manifestações. E os polícias, que ainda confessam medo, precisam de ajuda psicológica e política, séria e sensata, para, como os mais imediatos representantes da república junto das massas populares, poderem desempenhar-se da sua missão com orgulho e convicção. O povo sente que está abandonado.” Vânia Jacinto

1 Comment

  1. Caminho

    Julho 30, 2025 at 9:13 am

    Uma pura verdade. Não só esses locais, mesmo aqui ao lado da UCM, quando alguém saí da 1ª esquadra em direção a Matadouro. Até agora não sabemos o desfecho do processo

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