OPINIÃO
Os Concursos do Silêncio
Em cada anúncio de vagas públicas nasce uma esperança. Os jovens preparam pastas, imprimem certificados, copiam documentos e acreditam, acreditam que, talvez desta vez, o mérito vença o favor.
Mas o tempo passa, os dias viram meses, e a esperança vai ficando velha nos corações que esperam por respostas que nunca chegam.
Chamam-lhe concurso público, mas o público é o que menos sabe. Ninguém vê as listas, ninguém ouve os resultados, e ninguém explica por que razão tantos sonhos acabam no lixo das promessas.
Os que estudaram, os que madrugaram nas filas, os que acreditaram na justiça, ficam a olhar para um silêncio pesado, um silêncio que fala mais alto que qualquer comunicado oficial.
Esses concursos mal resolvidos tornam-se terreno fértil para a corrupção.
Abrem portas que deviam estar trancadas e fecham janelas por onde devia entrar a transparência.
Assim, há pessoas que entram para o aparelho do Estado sem saber como entraram, porque o processo aconteceu num tempo em que nenhum concurso foi publicado.
E quem questiona, ouve apenas respostas evasivas, ou o mesmo silêncio que já virou costume.
Um exemplo recente é o concurso do INSS, lançado neste ano, que até hoje ninguém sabe onde foi parar.
As listas de resultados desapareceram como poeira levada pelo vento.
Os candidatos suplentes continuam à espera, perdendo vagas porque o trâmite dos documentos anda mais devagar que a vontade de servir o país.
E quando finalmente os papéis chegam, são rejeitados sem razões claras, sem explicações, sem justiça.
Enquanto isso, as portas do Estado continuam a abrir-se, não ao mérito, mas à influência.
E o povo, cansado de esperar, começa a entender que nestes concursos o silêncio também é uma forma de exclusão.
Mas cuidado: o silêncio é traiçoeiro.
Hoje cala as vozes dos injustiçados, mas amanhã ecoará como grito de indignação.
Porque há um tempo em que o povo aceita, e outro em que o povo desperta.
E quando despertar, não haverá silêncio que consiga esconder a verdade.
José Luzia
Novembro 8, 2025 at 2:08 pm
Magnífico texto.
Parabéns
Eduardo Santos Almeida
Novembro 9, 2025 at 1:54 pm
🥲😪😡