OPINIÃO
Os Amuletos do Vizinho
Aqui na nossa terra, onde se ouve mais o som das panelas vazias do que o barulho das fábricas a funcionar, ainda há quem acredite mais no amuleto do vizinho do que na força do seu próprio trabalho. É isso que me inquieta e me leva a escrever estas linhas. Não para ofender, mas para provocar pensamento.
O vizinho do lado, aquele que ontem andava descalço e com a camisa rota, hoje aparece com sapato brilhante, relógio no pulso e uma casa nova a levantar-se como se tivesse ganho alguns milhões. A vizinhança logo começa a murmurar: “Ele tem um amuleto forte, foi ao curandeiro famoso lá no interior”. E assim nasce o medo e a inveja. Há até quem comece a fazer fila no mesmo curandeiro, na esperança de receber o mesmo “poder”.
O problema não está no amuleto em si. Cada um tem o direito de acreditar no que quiser. O problema está quando deixamos de acreditar no trabalho, na educação, na organização e começamos a depender de feitiços, proteções, pó de serpente e “sabonetes de riqueza” que prometem tudo, menos esforço.
Enquanto muitos rezam ao amuleto para mudar de vida, outros, mais calados, levantam-se cedo, estudam, vendem pão na esquina, fazem biscates, juntam moeda a moeda, até conseguirem algo digno. Esses raramente aparecem com amuletos ao pescoço, mas sim com calos nas mãos. São esses que deviam ser os nossos exemplos, e não os que, de um dia para o outro, mudam de vida com histórias mal contadas.
E depois há quem diga: “Mas se não for assim, não se sobe na vida”. Esta é a desculpa dos fracos e dos apressados. É verdade que o nosso país não facilita. Os empregos são poucos, os salários são uma miséria, e os que estão no topo só pensam nos seus bolsos. Mas isso não justifica que nos entreguemos às superstições como se fossem soluções mágicas.
Muitos jovens hoje já não querem estudar nem aprender um ofício. Querem é saber onde se compra o tal amuleto. E quem lucra com isso são os que vendem ilusões. Amuletos, pulseiras, frascos com água benta e sabonetes abençoados. Tudo a preço de ouro. E o povo, desesperado, paga.
O vizinho pode ter amuleto, mas nós temos cabeça. E se começarmos a usá-la para mais do que carregar chapéus, talvez descubramos que a verdadeira sorte está no esforço, na persistência e no saber.
Não precisamos de amuletos para sermos alguém. Precisamos é de coragem para enfrentar a realidade, estudar, lutar por justiça, cobrar os nossos líderes e, acima de tudo, trabalhar com honestidade.
Porque o amuleto do vizinho, por mais forte que seja, não vai pagar as nossas contas. E se continuarmos a depender de feitiçarias, um dia acordaremos sem país, sem dignidade e sem futuro.