OPINIÃO
O Veneno do coração que não perdoa
Há feridas que não se veem, mas sangram em silêncio. Há dores que não se curam com o tempo, porque o tempo só passa, não apaga. E há corações que, em vez de baterem pela vida, carregam o peso do ódio, do ressentimento e da mágoa. É assim que vivemos hoje: uma sociedade onde o perdão se tornou um luxo, e o rancor, uma forma de sobrevivência.
Dizemos com orgulho: “Desta vez não te perdoo.” E pronunciamos essas palavras como se fossem medalhas de coragem, sem perceber que, na verdade, estamos a acorrentar-nos ao passado. Guardamos mágoas como quem coleciona cicatrizes. Alimentamos ressentimentos que nos envelhecem antes do tempo. E vamos morrendo aos poucos, por dentro, sufocados por uma raiva que só destrói quem a carrega.
Nas famílias, irmãos que não se falam há anos por causa de uma herança mal partilhada. Nas igrejas, fiéis que rezam lado a lado, mas trocam olhares frios e palavras cortantes. Nos bairros, vizinhos que se evitam por causa de uma cerca mal colocada. E nas redes sociais, pessoas que se insultam, bloqueiam e humilham umas às outras, como se o ódio fosse um troféu.
O perdão tornou-se um acto raro, quase um milagre. Vivemos num tempo em que pedir desculpas é visto como fraqueza e perdoar é confundido com submissão. Esquecemo-nos de que o perdão não absolve o outro, liberta nós próprios. Não é um presente para quem nos feriu, mas uma libertação da dor que nos consome.
O coração que não perdoa adoece. A mente que não esquece, enlouquece. E a alma que guarda rancor perde o brilho. É por isso que vemos tantas pessoas amargas, ansiosas, deprimidas. Elas carregam no peito o peso de histórias mal resolvidas, de palavras nunca ditas, de feridas nunca tratadas.
Precisamos resgatar o poder do perdão, não como um gesto religioso, mas como uma terapia social. O perdão é o primeiro passo para uma sociedade mais humana, mais leve, mais saudável. Perdoar não é esquecer o que aconteceu, é escolher não deixar que o passado continue a comandar o futuro.
No distrito de Guijá, certa vez, dois irmãos deixaram de se falar por causa da divisão de um terreno herdado do pai. Cada um construiu o seu muro e a sua razão. Passaram-se mais de dez anos sem se cumprimentarem, mesmo morando a poucos metros um do outro.
Quando um deles adoeceu gravemente, o outro foi chamado para se despedir, mas recusou ir. Só depois do enterro, diante da cova, chorou arrependido e disse: “Perdoa-me, mano. Desta vez, era a última.” Mas já era tarde.
O perdão não é um sinal de fraqueza, é um acto de força. É o antídoto que cura feridas invisíveis e devolve à alma o direito de respirar. Se quisermos uma sociedade harmoniosa, precisamos começar por dentro, abrindo mão do rancor e reconstruindo pontes onde antes só havia muros. Porque quem não perdoa, carrega o outro no coração, e morre todos os dias por não saber deixá-lo partir. E mais não disse!