OPINIÃO

O sonho frustrado de um Pai

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O recente episódio registado no Centro de Formação de Matalane, que culminou com a expulsão de mais de 75 formandos, levanta uma reflexão profunda sobre o modelo de recrutamento e formação dos futuros agentes da lei em Moçambique.

Para muitos pais, ver um filho ingressar na formação policial representa mais do que uma conquista académica: é a esperança de estabilidade, dignidade e serviço à pátria. É o culminar de sacrifícios silenciosos, de noites mal dormidas e de economias feitas com enorme esforço. Quando esse sonho é interrompido por comportamentos desviantes, o impacto não é apenas institucional — é familiar e social.

Contudo, é preciso ir além da superfície. A expulsão em massa não pode ser analisada apenas como falha individual dos formandos. Ela expõe fragilidades estruturais no processo de admissão. Persistem denúncias recorrentes de apadrinhamentos, favorecimentos e até esquemas informais de acesso. Quando o mérito cede lugar à influência, a disciplina torna-se frágil desde o primeiro dia.

A selecção para uma instituição de natureza paramilitar exige rigor absoluto: avaliação psicológica séria, investigação do histórico comportamental, consulta comunitária e critérios transparentes. Não se pode admitir que jovens sem perfil vocacional, sem maturidade ou com histórico problemático ingressem apenas porque têm “padrinho” ou capacidade financeira para abrir portas.

Enquanto isso, jovens verdadeiramente vocacionados — disciplinados, preparados e comprometidos — ficam pelo caminho por falta de conexões. Perde a instituição, perde o Estado e perde a sociedade.

Os formandos expulsos regressam às suas comunidades marcados por um rótulo difícil de remover. Alguns poderão reencontrar o rumo; outros, infelizmente, poderão agravar comportamentos já preocupantes. Mas a pergunta central permanece: quem falhou primeiro? O jovem que se desviou ou o sistema que o admitiu sem filtros adequados?

Se queremos uma polícia forte, ética e respeitada, o processo deve começar na porta de entrada. O Ministério do Interior precisa reforçar mecanismos de controlo interno e garantir que o Centro de Formação de Matalane seja sinónimo de mérito, disciplina e vocação — e não de favoritismo.

Matalane deve ser um espaço onde se moldam servidores públicos comprometidos com o povo, e não um palco onde se revelam as fragilidades do sistema. Precisamos de jovens aptos, com valores sólidos, disciplinados e preparados para defender a lei com integridade.

Porque por trás de cada uniforme há um pai, uma mãe e uma família inteira que acreditou. E o sonho de um pai não pode continuar a ser vítima de um sistema que ainda tolera atalhos.

 Luís Vasconcelos

Um olhar atento

 

 

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