OPINIÃO
O Silêncio no Rio Nihequihi
O crepúsculo do último sábado parecia comum em Nacala-a-Velha, um momento de alegria, com crianças brincando de cabra-cega, futebol de rua sem regras nem árbitro, banhos nos rios castanhos. Tudo parecia tranquilo até que o som metálico de um camião rompendo o silêncio da vila transformou a calmaria em desespero. Na Estrada Regional n.º 703, que, por sinal, mais parece uma armadilha para ceifar vidas do que uma estrada, precisamente na zona de Covó, a travessia sobre o rio Nihequihi tornou-se palco de uma das maiores tragédias rodoviárias recentes da região.
Um veículo de carga, que transportava pessoas e mercadorias, entre fardos e sacos de alimentos — uma realidade ainda comum e perigosa nas rotas moçambicanas — despistou-se e capotou. Ao que tudo indica, o acidente não resultou apenas do excesso de velocidade ou da incompetência do condutor, mas também das péssimas condições da estrada, marcada pela ausência de asfalto e por inúmeros buracos. Em períodos eleitorais, a reabilitação daquela via foi promessa repetida, mas até hoje nada foi feito. Enquanto isso, vidas continuam a ser arrancadas das suas famílias e viaturas acumulam danos por falta de uma estrada condigna.
O balanço foi devastador: 16 vidas ceifadas instantaneamente, das quais 11 eram crianças que tiveram o futuro interrompido antes mesmo de compreenderem a fragilidade da vida e a dureza do país onde nasceram. Quantas mães, pais, irmãos e familiares terão agora de carregar para sempre o peso desta tragédia?
A estrada pode valer milhares de meticais. Mas quanto vale uma vida humana que não pode ser devolvida depois de perdida?
O cenário encontrado era de dor profunda. Entre os destroços do camião Toyota Dyna e os corpos espalhados, como se estivessem num cenário de filme, o luto espalhou-se rapidamente pelas comunidades de Nacala-a-Velha e Memba. Outras 12 pessoas ficaram gravemente feridas, algumas lutando pela sobrevivência no Hospital Geral de Nacala-Porto. São vidas humanas perdidas naquele ponto do país.
Devemos ser mais humanos e mais responsáveis com os cargos e funções que ocupamos. Existe um Ministério das Obras Públicas, existem subordinados e existe a ANE, criada precisamente para garantir estradas asfaltadas e de qualidade. Contudo, o cenário que vemos é outro. Assistimos constantemente a situações complicadas de má gestão em certas instituições, e o resultado são tragédias sem botão de retrocesso.
O Presidente da República manifestou o seu pesar, algo que não podia faltar por se tratar do mais alto magistrado da Nação, juntando-se ao coro de vozes que lamentam a recorrência de acidentes fatais que continuam a manchar de sangue as estradas do país. Mais do que números em relatórios oficiais, estas 16 pessoas representam famílias destruídas e vazios que dificilmente serão preenchidos pelo tempo.
Nacala-a-Velha, hoje, não é apenas um ponto no mapa de Nampula. É um símbolo de luto e um lembrete urgente da necessidade de segurança nas vias que ligam os sonhos e as vidas dos moçambicanos.
Não podemos deixar de apresentar as nossas profundas condolências às famílias enlutadas. A morte é um caminho que todo ser humano terá de enfrentar, mas o mais doloroso é saber que algumas vidas foram interrompidas antes mesmo de compreenderem o verdadeiro significado da vida.