OPINIÃO

O novo Nampula: onde a coesão é forçada

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Em Nampula, o direito à manifestação perdeu o valor de cidadania para se tornar uma ameaça à ordem pública. O que antes era uma ferramenta legítima de expressão popular passou, agora, a ser tratado como um acto de insubordinação, reprimido antes mesmo de sair do papel. Nasce assim o novo Nampula: uma cidade onde a coesão não é construída, mas imposta — pela força.

A marcha contra a crise de combustíveis, convocada por jovens activistas e anunciada com aviso prévio, seguiu todos os trâmites legais. A carta enviada à Polícia da República de Moçambique não solicitava autorização — apenas comunicava a realização da manifestação, como dita a Constituição. Mas em vez de garantir a segurança dos manifestantes, como seria o seu papel, a polícia respondeu com bloqueio total. Cercou os pontos de concentração, intimidou, frustrou e neutralizou o protesto.

Mais grave ainda: arrogou-se o poder de responder formalmente à carta como se tivesse competência para autorizar ou negar manifestações. Não tem. A PRM existe para manter a ordem e proteger os cidadãos, não para determinar quando ou se eles podem exercer direitos fundamentais.

É sintomático e preocupante que, numa altura em que a crise de combustíveis atinge níveis insuportáveis para a maioria dos moçambicanos, o Estado escolha abafar a indignação legítima em vez de escutá-la. Pior do que o silêncio imposto é a normalização desse silêncio — como se a tranquilidade pública só pudesse existir à custa da voz do povo.

Estamos a assistir à instalação de uma cultura perigosa: a da coesão forçada, onde a paz é simulada e a ordem se mantém pela contenção das liberdades. É o novo Nampula — onde a Constituição é selectivamente aplicada e a polícia já responde por instituições civis. Onde protestar virou risco, e não direito.

Mas a história ensina que coesão forçada nunca é duradoura. A dignidade humana é persistente. Mais cedo ou mais tarde, a voz que hoje foi calada encontrará novos caminhos. E Nampula — a verdadeira, plural, viva e crítica — voltará a falar. Porque coesão autêntica só se constrói com justiça, e não com medo.

 

 

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