OPINIÃO
O jornalista moçambicano e as vicissitudes da actualidade
Por: Jafar Buana
Jornalista (pesquisador/Mestre em Comunicação para o Desenvolvimento)
O mês de Abril tem sido muito especial para o jornalista moçambicano. E o de este ano não fugiu à regra. É o mês em que os jornalistas moçambicanos estão em festa, pela passagem do seu Dia, o 11 de Abril, data que marca a criação da Organização Nacional de Jornalistas (ONJ), agora transformada em Sindicato Nacional de Jornalistas (SNJ) e, por conseguinte, consagrado o Dia do Jornalista moçambicano. E, por esta ocasião, endereço os meus votos de boas festas a todos os jornalistas, os meus pares, bem como os outros profissionais da comunicação social em Moçambique.
Para este ano, o sabor das comemorações fé acrescido pois, calhou com a aprovação, recentemente, pela Assembleia da República, da Lei da Comunicação Social, há muitos anos esperada pela classe e pelos demais amantes da democracia, já que o exercício da liberdade de expressão e de imprensa passa por regras definidas, legalmente, como o que acabou de acontecer no parlamento. Resumidamente, caiu a anterior lei, a Lei Nº 18/91, de 10 de Agosto, ou simplesmente, a Lei de Imprensa. No cômputo geral, reina o sentimento de que, como em qualquer processo que consiste em debater ideias e produzir consensos, o instrumento é oportuno para o momento que o país está a atravessar. Um e outro ainda dizem que não é exactamente assim, porque ainda há aspectos que careciam de melhor análise e ponderação, como é o caso do inevitável receio do controle midiático por parte do Estado. Outros, ainda, jubilam-se pelo facto de o instrumento poder vir a alavancar mais o sector, em termos organizacionais e profissionais, em que nesta última perspectiva desponta a carteira profissional do jornalista.
Para começar, pode-se dizer que sim, o sector já está a entrar num novo contexto, promissor e desafiante. É claro que não será pelo instrumento ora aprovado que tudo correrá às mil maravilhas. Não, senhores. Estamos a falar de um sector cuja dinâmica é à velocidade da luz, no que concerne à sua inovação tecnológica e crescimento humano, onde os seus profissionais são chamados a não perderem o comboio, sob o risco de se virem excluídos do processo de transformação.
Essencialmente, e é aqui onde eu queria chegar, o jornalista hoje, à escala planetária e não apenas o moçambicano, é um ser intelectual que deve ser capaz de, rapidamente, identificar o terreno da sua actuação e os conteúdos que veicula nesse determinado contexto, de forma a partir para uma abordagem integral, no contexto da globalização, pois, o mundo hoje é uma aldeia global, cujas sociedades são regidas pela comunicação.
Com a massificação das tecnologias de informação e de comunicação (TIC), principalmente à entrada deste século, os vaticínios não favoreciam a continuidade do modelo clássico de fazer jornalismo. Sobre o jornalista moçambicano também pairou esse sufoco analítico. Com os dias a passarem, conclui-se que não é exactamente assim, porque o próprio jornalista adaptou-se à realidade, sem, necessariamente, declarar-se óbito ao clássico da profissão.
É verdade que as vicissitudes são imensas no quadro dessa adaptação, em parte devido à deficiente ou falta de preparação para enfrentar o aguerrido mercado tecnológico da comunicação social, em que se empregam equipamentos modernos e se produzem abordagens temáticas cada vez mais exigentes, do ponto de vista intelectual e sócio-político. É uma era em que a própria sociedade é toda ela jornalista, exigindo assim um exercício acrescido da profissão na esfera ético-deontológica.
Literalmente, o jornalista, e tal como a nossa legislação sobre a matéria define, é aquele indivíduo que recolhe, processa e publica informações de interesse público, cujo trabalho constitui a sua fonte de renda ou sobrevivência. Neste conceito clássico, a referida esfera ético-deontológica é presente, tanto como exigência legal, quanto como um compromisso pessoal do seu praticante.
O crescimento vertiginoso da cibernética, com o acento tónico no recurso à comunicação via internet, principalmente com o surgimento das redes sociais, veio colocar mais pressão ao jornalista, que é metido numa prova ético-deontológica e legal muito alta, um espaço em que o falso e o verdadeiro se cruzam constantemente e a verdade, não em poucas vezes, é a principal vítima.
Perante este dilema, o jornalista tradicional é hoje chamado a ser o actor do exercício da verdade, analisando, escrupulosamente, tudo quanto recebe das suas fontes de informação, de forma a levar ao público um conteúdo verdadeiro, e não aquele que configuram as famosas notícias falsas “fakenews”, que nos dias que correm são, em muitas ocasiões, fontes de desunião e intrigas na sociedade, assim como para a queda de confiança inter-pessoal e institucional, calúnias e difamação, entre outros males.
É, para terminar, tarefa do jornalista confirmar a fonte e a veracidade do que recebeu para efeitos noticiosos, tal como defende o professor de jornalismo da Universidade de São Paulo, Carlos Chaparro. Diz que o conteúdo informativo bonito e muito rápido, nos nossos dias, carece de filtração, antes de ser publicado. Às vezes, as redes sociais até podem ser uma grande fonte de informação. Contudo, para tal exige-se o rigor analítico por parte do jornalista, o único, até hoje, credível e confiado pelo público para a confirmação do que circula sem critério jornalístico. É ele que cabe a tarefa de oficializar a informação.
Num estágio que fiz na China Radio International, em Pequim (Beijing), em 2015, pude verificar que as redes sociais são, afinal, também muito importantes, como fonte, dado que há informações que circulam nessas plataformas captadas por cidadãos anónimos, amadores ou simples curiosos, mas que têm um cunho noticioso muito forte e real, muitas vezes distribuídos por via de telemóveis ou outras plataformas digitais. Para o efeito, a referida rádio tem uma redacção própria dentro da redacção central que se encarrega de seguir as redes sociais, apenas, para efeitos de filtração do que é noticiável ou não. Equipas de repórteres saem da redacção até ao local dos acontecimentos, por exemplo, referenciado na informação, para conferí-la e produzir-se uma notícia real, credível.
Portanto, o jornalista moçambicano, como temos visto, hoje está em altura de ombrear com qualquer que seja a realidade, no quadro do exercício da sua profissão, desde que o seu foco seja relatar a verdade e os factos. Os desafios e riscos nessa incessante busca pela liberdade crescem, sobretudo agora com o surgimento da inteligência artificial (IA ou AI – na sigla inglesa), em que quase tudo o que aparece e se põe a circular se parece com a verdade e com o real. Um novo capítulo que exige um grande investimento tecnológico e humano no sector da comunicação social. E não só.
Bem haja, o jornalista moçambicano.