OPINIÃO
O grito de um povo cansado de falsas prioridades
Na província de Cabo Delgado, o Governo decidiu surpreender toda a gente com um novo investimento: a compra de uma frota de “tratores-chapa” para melhorar o transporte público rural. Foi um acontecimento! O anúncio veio em grande estilo, com muita pompa, e os dirigentes garantiram que agora “o povo ia andar mais rápido e mais confortável”.
No entanto, a realidade foi outra: os tratores-chapa eram típicos para transportar bovinos ou suinos, barulhentos e, pior, circulavam por estradas cheias de buracos e poeira. Para piorar, as obras prometidas para melhorar as vias nunca começaram.
Certo dia, durante uma reunião de bairro, o velho Nhantumbo levantou-se e disse:
— “Irmãos, querem saber qual é a verdadeira prioridade deste Governo? Não são estradas, nem escolas, nem hospitais. É dar ao povo ‘tratores-chapa’ para andar a andar… mas só para atrasar!”
O povo riu, mas o riso escondia a frustração. Nhantumbo continuou:
— “Eles compram ‘tratores-chapa’ para parecer que fazem alguma coisa, enquanto as crianças vão à escola a pé, os doentes chegam atrasados, e o comércio morre porque as estradas não prestam. O grito do povo já não é só por melhorias, é por respeito!”
No final da reunião, todos bateram palmas, não por causa dos tratores, mas pelo desabafo sincero de um homem que cansou de falsas prioridades.
Moçambique, terra de povo resiliente e de horizontes largos, não pode continuar a tropeçar onde já deveria correr. O que vemos, porém, é um país onde o atraso foi institucionalizado, não como consequência inevitável, mas como escolha deliberada. E essa escolha torna-se visível, concreta e dolorosa quando olhamos para as nossas estradas, ou para a sua ausência. Em vez de asfaltar o progresso, opta-se por encobrir a ineficiência com improvisações absurdas como o trator-chapa, uma solução que mais parece sátira do que política pública séria.
É um insulto à dignidade do povo. Porque cada estrada esburacada é um travão à economia local, é um parto que não chega a tempo ao hospital, é uma criança que se atrasa para a escola, é um comerciante que perde o seu sustento por não conseguir transportar a sua mercadoria. As estradas são mais do que asfalto, são artérias por onde devia circular a vida do país. Quando estão em ruínas, é o próprio coração da nação que se enfraquece.
O trator-chapa, com seu ronco lento e sua precariedade aparente, tornou-se o símbolo infeliz de uma governação que prefere maquilhar a vergonha do subdesenvolvimento em vez de encará-la de frente. Ele não representa solução alguma; representa o colapso do planeamento, o desprezo pelas prioridades e o conformismo institucionalizado. É como se o Estado dissesse ao povo: “Não esperem muito de nós. Vão andando assim mesmo.”
Enquanto isso, quem decide continua em viaturas climatizadas, em rotas alternativas, blindados pela distância e pelo privilégio. Os que mais precisam de estradas, os das aldeias longínquas, os das zonas agrícolas, os professores que tentam chegar a escolas esquecidas, são os mesmos que vivem o peso do descaso todos os dias.
Pior: há uma normalização perigosa desse improviso. As comunidades habituam-se à lentidão. Os estudantes riem do trator-chapa porque rir é mais fácil do que chorar. Os cidadãos vão perdendo a esperança porque a frustração se tornou crónica. E nisso, se cultiva uma cultura de desistência: desiste-se de exigir, de acreditar, de esperar.
Mas é preciso romper com esse ciclo. O povo tem o direito e o dever de gritar. De gritar que Moçambique não pode ser governado com remendos. De exigir que o orçamento sirva ao desenvolvimento, não à decoração política. O país precisa de investimento sério em infraestruturas porque uma estrada pavimentada hoje é um hospital que se chega amanhã, é uma aula que começa a horas, é um mercado mais acessível, é emprego, é dignidade.
Não se constrói futuro em cima de improvisos. Não se honra a pátria com ferro velho a rolar sobre buracos. O povo quer e merece mais. E esse clamor, vindo do Rovuma ao Maputo, das margens do Índico até às terras do Zumbo, precisa ser ouvido, antes que o ruído do atraso se torne silêncio de desespero.
Moçambique não pode andar a trator. O país deve acelerar com seriedade, com compromisso e com respeito pelo povo que o carrega às costas. Porque cada quilómetro abandonado é uma oportunidade perdida e, pior ainda, um insulto à esperança de milhões. E mais não disse!