OPINIÃO
O fim de Sodoma começou com a indiferença dos bons
Dizem que o silêncio é ouro, mas em tempos de injustiça, o silêncio é covardia. E é com essa ideia que me vem à memória aquela história antiga, escrita nas páginas do Génesis, em que Abraão, diante de Deus, intercede por uma cidade mergulhada no pecado: Sodoma. Ele não pede riquezas, não pede terra, não pede segurança. Pede apenas que Deus tenha compaixão, se houver pelo menos alguns justos naquela terra. Primeiro fala em cinquenta, depois vai descendo o número, quase a sussurrar, até chegar aos dez. E Deus, com toda a sua paciência, diz que sim, que poupará a cidade se houver dez justos. Mas não havia. E a cidade caiu.
A maioria lê esta história e pensa logo nos pecados dos habitantes de Sodoma. Mas o que poucos entendem é que o problema maior não foi a maldade dos maus, mas foi a ausência dos bons. Ou pior: a presença dos bons calados, confortáveis, indiferentes. O fim de Sodoma começou muito antes da destruição. Começou quando os justos deixaram de fazer diferença.
E hoje? Quantos justos temos nós? É uma pergunta que assusta, porque talvez a resposta não seja muito diferente da que se deu nos tempos de Abraão. Vivemos rodeados por violência, corrupção, desonestidade e ganância. Vemos homens que deveriam proteger a lei a vendê-la ao melhor preço. Vemos escolas que ensinam pouco, hospitais que curam pouco e igrejas que, às vezes, pregam muito e vivem pouco do que pregam. E no meio disto tudo, os bons — os que ainda se dizem de bem, calam-se.
O mal cresce não porque é poderoso, mas porque encontra um campo livre, desprotegido. Os bons, com medo, com cansaço ou simplesmente por comodismo, preferem não se meter. Fecham os olhos, desviam o olhar, cruzam os braços e dizem que “não é comigo”. É este “não é comigo” que destrói as sociedades. Foi esse “não é comigo” que matou Sodoma. E é esse mesmo espírito que hoje destrói bairros, cidades, países inteiros.
As redes sociais estão cheias de gente que se indigna. Mas é uma indignação de sofá, de ecrã. Poucos são os que se levantam, que dizem não, que correm riscos. E no entanto, ainda ouvimos vozes a dizer: “não vale a pena”, “o sistema já está podre”, “todos são iguais”. Frases que, na prática, significam apenas desistência.
Mas será que já desistimos de tudo? Será que os poucos bons que ainda existem já se convenceram de que não vale a pena lutar? Será que já aceitamos que este país não tem solução, que a corrupção venceu, que a verdade não serve para nada?
Não. Não podemos aceitar isso. Porque, se calarmos todos, se recuarmos todos, então Sodoma já começou a cair de novo. E, desta vez, cairá com todos nós lá dentro. A única forma de travar o mal é com coragem. Com gente que decide não ceder. Que, mesmo sendo minoria, levanta-se e diz: “Aqui, não!”
O mundo não precisa de milhares de heróis. Precisa de justos. E os justos não precisam ser perfeitos. Precisam apenas de ser coerentes. De não se venderem. De não se calarem. De não pactuarem com a mentira só porque ela vem embrulhada em promessas. A justiça começa com atitudes simples: uma denúncia feita, uma verdade dita, um silêncio quebrado, um “não” firme diante do que está errado.
Deus não destruiu Sodoma por causa da maldade. Destruiu por causa da ausência de quem se opusesse a ela. E essa ausência começa na indiferença. Uma sociedade onde os bons se calam é uma sociedade condenada.
Hoje, tal como Abraão, podemos questionar: “Senhor, e se houver dez justos?” Mas, ao contrário de Abraão, não devemos apenas perguntar, devemos ser um deles. Porque talvez não sejamos muitos. Talvez sejamos poucos. Mas se esses poucos forem corajosos, íntegros e persistentes, ainda há esperança.
Enquanto houver gente disposta a não ceder à corrupção, a educar com valores, a amar sem segundas intenções, a lutar por justiça mesmo em desvantagem, então ainda há futuro. E talvez Deus, olhando para nós, diga como disse a Abraão: “Se houver dez, pouparei a cidade.” E a cidade, desta vez, poderá ser salva.
Ser Pobre não defeito