OPINIÃO
O Cancro da Cleptocracia em Moçambique
As recentes detenções ocorridas na cidade de Maputo, envolvendo a cúpula do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS), designadamente o seu o Director-Geral e os responsáveis pelas áreas de Administração e Finanças, UGEA e Administração Geral, em conluio como o sector empresarial, expõem, uma vez mais, uma realidade incómoda e persistente: a institucionalização silenciosa da cleptocracia em Moçambique. Este não é um caso isolado, mas a repetição de um padrão sistémico: estruturas públicas criadas para servir o interesse colectivo são capturadas por redes privadas, que instrumentalizam o Estado para benefício próprio. A manipulação de concursos públicos não é apenas ilegal, mas um atentado directo à confiança pública e à própria ideia de Estado.
A cleptocracia, entendida como o “governo dos ladrões ou corruptos”, não se limita a actos individuais. Ela instala-se de forma sistémica, infiltrando-se nos mecanismos administrativos até normalizar práticas ilícitas sob o manto da impunidade. Quando instituições como o INSS, cuja missão é garantir protecção social, se tornam canais de desvio de fundos, o impacto vai além dos prejuízos financeiros, atingindo directamente os cidadãos mais vulneráveis que dependem destes serviços para sobreviver com dignidade.
O nível de sofisticação desses esquemas é preocupante. A manipulação sistemática de concursos públicos e processos de contratação revela planeamento e coordenação minuciosa, além da existência de redes bem estruturadas dentro e fora do Estado. Não se trata de falhas pontuais, mas de um problema estrutural de captura institucional que exige respostas igualmente estruturais.
As consequências são devastadoras: projectos essenciais e infra-estruturas vitais ficam comprometidos, os serviços públicos tornam-se ineficientes e a desigualdade social aprofunda-se. A cleptocracia funciona como um cancro institucional, corroendo a integridade das instituições, destruindo a confiança dos cidadãos e comprometendo o futuro do país.
Embora as detenções recentes representem um passo importante, são claramente insuficientes. O combate à corrupção não pode limitar-se a reacções pontuais; é necessário adoptar uma abordagem preventiva e sistémica, que actue sobre as causas e não apenas sobre os sintomas. Isso implica transparência nos concursos públicos, reforço de mecanismos de controlo interno, auditorias independentes e prestação de contas, mas sobretudo a construção de uma cultura institucional baseada na ética.
Neste contexto, a erosão de três pilares da governação pública torna-se evidente, resumidos nos “3R”: respeito pelo bem público, responsabilidade no exercício do cargo e responsabilização dos infractores. O respeito pelo bem público significa reconhecer que os recursos do Estado pertencem à colectividade. Quando desviados, rompe-se o contrato social que sustenta a legitimidade das instituições, transferindo benefícios a uma minoria e agravando desigualdades.
A responsabilidade ultrapassa o cumprimento formal de funções. Está ligada à confiança que os cidadãos depositam nos gestores públicos. Um cargo no Estado exige integridade, transparência e compromisso com o interesse colectivo. Quando essa responsabilidade é traída, o dano não atinge apenas a instituição, mas todo o sistema de governação.
Por fim, a responsabilização é fundamental para restaurar a confiança social. As detenções podem sinalizar progresso, mas só terão impacto real se acompanhadas por processos judiciais rigorosos, transparentes e consequentes. A impunidade não pode ser a regra: responsabilizar os infractores deve tornar-se norma e exemplo claro de que o Estado de Direito se aplica a todos.
Moçambique não pode continuar refém de práticas que drenam recursos essenciais e comprometem o desenvolvimento nacional. A cleptocracia não é apenas má governação; é um entrave directo à dignidade dos cidadãos e ao progresso sustentável. Os acontecimentos recentes devem marcar um ponto de viragem: mais do que indignação momentânea, exigem acção contínua e compromisso com os valores fundamentais da República, garantindo que o desenvolvimento do país se traduza em melhorias reais para todos.