OPINIÃO
Nós, Jornalistas, também erramos
Ser jornalista em Moçambique não é uma profissão leve. Nunca foi. É caminhar numa estrada onde a poeira da incerteza se levanta todos os dias, onde a pressão política aperta, onde o medo se infiltra nos corredores das redacções e onde, muitas vezes, a sobrevivência fala mais alto do que a ética.
Nós sabemos disso. Vivemos isso.
Somos aqueles que acordam cedo para contar histórias que muitos preferiam esconder. Somos os que enfrentam olhares desconfiados, ameaças veladas e, por vezes, o silêncio imposto por quem detém o poder. Trabalhamos com poucos recursos, com salários que nem sempre dignificam a missão, e com equipamentos que mais parecem relíquias do passado.
E, ainda assim, insistimos.
Insistimos porque acreditamos que a informação é um direito, que a verdade liberta e que o jornalismo é uma das últimas trincheiras da cidadania. Mas seria desonesto profundamente desonesto aproveitar este dia apenas para falar das nossas dores e esquecer os nossos próprios pecados.
Porque nós, jornalistas, também erramos.
Erramos quando nos deixamos seduzir por interesses que não são os do povo. Quando trocamos a nossa caneta por favores, quando suavizamos verdades duras para agradar quem nos pode beneficiar. Erramos quando publicamos sem investigar o suficiente, quando priorizamos a velocidade em detrimento da veracidade.
Há momentos em que falhamos gravemente com a sociedade. Quando alimentamos a desinformação, quando amplificamos boatos, quando damos palco ao sensacionalismo em vez de promovermos um debate sério e construtivo. Quando esquecemos que cada palavra publicada tem impacto real na vida de pessoas reais.
E talvez o mais doloroso: erramos quando nos calamos. O silêncio de um jornalista, em certos contextos, é mais ensurdecedor do que qualquer mentira. Quando sabemos e não dizemos. Quando vemos e fingimos não ver. Quando a autopreservação sufoca o compromisso com a verdade.
Mas reconhecer isso não nos diminui. Pelo contrário, humaniza-nos.
O jornalismo não é feito por heróis intocáveis. É feito por homens e mulheres comuns, com medos, ambições, limitações e, sim, falhas. O problema não está em errar está em persistir no erro, em recusar a autocrítica, em construir uma imagem de pureza que não corresponde à realidade.
Este dia deve ser, acima de tudo, um momento de reflexão profunda dentro da classe.
Que jornalismo estamos a fazer?
A quem estamos realmente a servir?
Estamos a honrar a confiança que o povo deposita em nós?
Celebrar o Dia do Jornalista não pode ser apenas trocar mensagens de parabéns e elogios entre colegas. Tem de ser um compromisso renovado com a ética, com a coragem e com a responsabilidade.
Sim, somos jornalistas.
Sim, enfrentamos desafios enormes.
Mas sim… nós também erramos.
E é justamente por reconhecermos isso que ainda temos a chance de fazer melhor.