SOCIEDADE
Nicaquela defende recrutamento transparente nas ONGs para travar abusos na ajuda humanitária em Cabo Delgado
O analista político e social Wilson Nicaquela defende que a prevenção de abusos contra deslocados em Cabo Delgado, praticados por alguns funcionários de organizações não-governamentais (ONGs), só será eficaz se houver maior transparência nos processos de recrutamento e um forte investimento em educação baseada em valores humanos desde a infância.
A Organização das Nações Unidas alertou, há sensivelmente duas semanas, para a existência de casos de exploração e abuso sexual praticados por colaboradores durante a ajuda humanitária em Moçambique, salientando que estes “aproveitam-se da situação de vulnerabilidade das comunidades”.
Para Nicaquela, este fenómeno não é reflexo da política institucional das ONGs, mas resulta de falhas nos processos de selecção de pessoal.
“O problema não está na missão das organizações, mas no perfil de alguns indivíduos que nelas ingressam. Muitas vezes, os processos de selecção não avaliam competências nem comportamento. Em Moçambique, grande parte dos recrutamentos é feita através de telefonemas, cartas escondidas por baixo da mesa ou simples recomendações pessoais. Assim, entram pessoas sem valores e sem integridade para lidar com populações extremamente vulneráveis”, explicou.
O analista acrescenta que a solução imediata passa por apostar na contratação de pessoas locais. Embora reconheça que não estejam totalmente imunes a desvios, considera que os trabalhadores da própria comunidade estão mais próximos das famílias e mais sujeitos ao controlo social, o que reduz os riscos de práticas abusivas.
“Quando se importam técnicos de outras regiões ou expatriados que ficam seis meses longe da família, facilmente emergem comportamentos perversos. Já no caso dos locais, o controlo é maior, porque regressam diariamente ao convívio da comunidade”, sublinhou.
Contudo, Nicaquela alerta que o problema vai além da gestão das ONGs e está enraizado na própria sociedade moçambicana. Segundo ele, o país vive um “ciclo vicioso de ausência de valores”, onde não se cultivam princípios de integridade, empatia, justiça e solidariedade.
“Somos uma sociedade em que a morte é banalizada, o sofrimento do outro é banalizado e a vulnerabilidade é usada como oportunidade para ganhos pessoais”, criticou.
Para além de recomendar que as organizações priorizem a contratação de pessoas locais, como forma de reduzir riscos de abusos por parte de expatriados ou técnicos externos, o analista propõe uma reforma profunda do sistema educativo, com enfoque não apenas na instrução e certificação, mas também na educação moral desde a escola primária.
“Precisamos de uma educação que ensine que a vida é o maior valor da humanidade, que sem respeito à dignidade e ao próximo não há humanidade. Só assim poderemos formar cidadãos que, no futuro, não vejam no sofrimento alheio uma oportunidade de exploração”, concluiu. Vânia Jacinto