OPINIÃO
Não murmures como os outros murmuraram
O povo de Israel saiu da escravidão do Egipto com uma promessa de libertação. Mas, ao longo da caminhada, esquecendo-se do peso das correntes que antes os aprisionavam, começaram a reclamar. Murmuraram contra Moisés, contra Deus, contra o próprio destino. A fome e a sede que enfrentavam no deserto foram suficientes para fazer-lhes desejar o passado de opressão, como se fosse melhor viver acorrentado do que enfrentar os desafios da liberdade. A murmuração tornou-se um veneno. Não os fez avançar, mas sim perecer.
Agora, olhemos para nós, o que mudou desde os tempos de Moisés? Será que não somos ainda esse mesmo povo que, mesmo depois de liberto, prefere lamentar-se em vez de agir? Passaram-se 50 anos desde que nos livramos das correntes coloniais, mas será que já deixamos a mentalidade de escravos? Quando enfrentamos dificuldades, o que fazemos? Procuramos soluções ou apenas nos afundamos na murmuração?
Nas nossas igrejas, comunidades e paróquias, a realidade não é diferente. Criticamos os padres, os bispos, os catequistas e os líderes dos grupos, mas quantos de nós estão dispostos a contribuir para a mudança? Quantos levantam a voz para acusar, mas nunca levantam um dedo para ajudar? Em vez de trabalhar para o crescimento da Igreja, espalhamos intrigas, fofocas e maledicência. Se um padre fala de justiça, logo dizem que está metido em política; se um bispo denuncia a corrupção, dizem que está contra o governo; se um leigo defende a verdade, chamam-no de rebelde. Assim como o povo no deserto, preferimos reclamar do que construir.
Mas a murmuração não está apenas dentro da Igreja. Ela reina na nossa sociedade. Queixamo-nos dos políticos, dos dirigentes, da corrupção, da pobreza, da falta de emprego, mas será que fazemos a nossa parte? O trabalhador que chega atrasado ao serviço mas exige aumento salarial, o comerciante que engana no peso mas reclama da crise, o estudante que não estuda mas culpa o professor pela reprovação… não são também murmuradores? Queremos um Moçambique melhor, mas será que estamos a trabalhar para isso ou apenas a murmurar, como aquele povo no deserto?
E, como se não bastasse, ainda há os que romantizam o passado. Há quem diga que nos tempos de Samora Machel era melhor, que antes a vida tinha mais dignidade. Mas, tal como os israelitas queriam voltar ao Egipto, será que queremos mesmo regressar à escravidão? Ou será que estamos apenas cegos, incapazes de ver que o problema não é o tempo em que vivemos, mas sim a forma como vivemos?
A Igreja convida-nos a caminhar juntos, no espírito de sinodalidade. Este ano Jubilar é um chamado à conversão, à união, ao compromisso. A murmuração não nos levará a lugar nenhum. Apenas nos manterá presos no mesmo deserto onde muitos já passaram. O Evangelho do 3º Domingo da Quaresma recorda-nos: “Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (Lc 13,5). Deus não nos criou para sermos um povo de lamentações, mas sim de ação.
Portanto, em vez de murmurar, que tal levantar-se e fazer a diferença? Em vez de criticar a Igreja, que tal servi-la com amor? Em vez de maldizer o país, que tal trabalhar por um Moçambique melhor? O caminho para a terra prometida é longo, mas só os que perseveram na fé e na ação chegam ao fim. Os murmuradores, esses ficam pelo caminho.