OPINIÃO

Mendigos de Títulos

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Vivemos num tempo em que os títulos parecem valer mais do que o próprio nome. Há quem já não se sinta pessoa, mas apenas cargo. Quem já não responda por si, mas pelo que o mundo lhe reconhece ou melhor, pelo que o mundo deveria reconhecer. São os que se ofendem quando não se lhes chama “Doutor”, “Professor”, “Técnico”, “Engenheiro”, ou “Mestre”. São, em essência, os mendigos de títulos,  aqueles que, mesmo tendo conquistado algo legítimo, não conseguem mais existir sem o aplauso das palavras que precedem o nome.

Há um tipo curioso de fome que corrói certas almas: a fome de ser reconhecido. Não basta ser bom, é preciso que todos saibam que se é bom. Não basta servir, é preciso ser aplaudido por servir. E assim, o título que um dia foi fruto de mérito e suor transforma-se em bengala de ego, em medalha pendurada ao peito para compensar o vazio da humildade que ficou pelo caminho.

A humildade, essa virtude esquecida, é hoje tida quase como fraqueza. Ser chamado apenas pelo nome é, para alguns, uma ofensa. Como se o nome já não bastasse. Como se o nome, aquele dom que se recebe ainda antes de saber andar, falar ou pensar, tivesse perdido o seu valor. O “José” já não é suficiente, é preciso ser “Dr. José”. O “Maria” perdeu encanto, é preciso ser “Irmã Maria”. Como se o que define o valor de alguém fosse o prefixo, e não a essência.

No entanto, há uma ironia cruel nesta busca desesperada por reconhecimento, quanto mais o indivíduo exige ser tratado com reverência, menos digno dela se torna. A autoridade verdadeira não grita, não se impõe, não exige ser chamada de “senhor” ou “excelência”. A verdadeira grandeza se reconhece pelo caráter, não pelo crachá. É como o perfume: quem o tem, não precisa anunciá-lo; sente-se naturalmente.

Muitos desses “mendigos de títulos” esquecem que a vida é um palco passageiro, e os papéis que nela desempenhamos são apenas temporários. Hoje somos professores, amanhã seremos alunos da própria vida. Hoje somos doutores, amanhã poderemos estar doentes e depender do cuidado de quem chamamos, com desprezo, de “simples”. O tempo, esse mestre silencioso, é o único que não precisa de diploma ele ensina a todos, e sem piedade.

É triste perceber que o orgulho intelectual e o clericalismo também se infiltraram até nos espaços sagrados. Há padres que se zangam se alguém os trata apenas pelo nome; há irmãs que torcem o rosto se alguém se esquece de dizer “Irmã”. Como se o chamado à vocação fosse uma promoção, e não um serviço. Como se a missão de servir ao próximo tivesse se transformado num trono de vaidade. Mas o próprio Cristo, o Mestre dos mestres, não se ofendia por ser chamado apenas de Jesus,  o Filho do carpinteiro.

E que dizer dos “técnicos”, “mestres” e “engenheiros”? Alguns transformaram o título em passaporte de superioridade, esquecendo que o verdadeiro saber se mede pela capacidade de partilhar, não de humilhar. O mundo está cheio de doutores ignorantes da alma e de analfabetos sábios do coração.

O problema não está em ter o título, mas está em viver dele. O título deve ser uma ferramenta, não uma muleta. Um símbolo de competência, não um pedestal. O respeito não nasce da palavra que antecede o nome, mas do testemunho que o acompanha.

Quem mendiga títulos, mendiga respeito. E quem mendiga respeito, revela que o perdeu em algum ponto do caminho.

A grandeza de um ser humano não se mede pelo número de diplomas na parede, mas pela quantidade de vidas que ele toca com verdade, simplicidade e amor. O mundo precisa de mais pessoas de nome, e menos pessoas de título.

No final, quando todos os títulos forem apagados e o corpo voltar ao pó, o que restará será apenas um nome. E será por esse nome, não por “doutor”, nem “professor”, nem “padre” que Deus nos chamará.

Porque diante d’Ele, somos todos iguais: filhos, e nada mais.

 

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