ECONOMIA
Mais de 2 mil deslocados em Muriaze vivem à fome
Mais de 2 mil deslocados de Cabo Delgado acolhidos em Muriaze, na localidade de Namachilo, distrito de Memba, queixam-se de passar fome e de não terem condições mínimas de subsistência. Pedem ao Governo apoio alimentar urgente, para garantir pelo menos uma refeição por dia às crianças e famílias.
Relatos dão conta de longos períodos sem comida e de refeições precárias, como feijão sem sal, enquanto as tentativas de produção agrícola local falham. “Estamos no zero. Por isso estamos a chorar”, disse Abede Issufo Momade, representante dos deslocados.
Na semana passada, a comunidade deslocada decidiu levar as suas preocupações ao nível provincial, através de uma carta entregue ao governador Eduardo Abdula, por intermédio do director provincial da Agricultura e Pescas, Manuel Chicamisse, durante a entrega simbólica de cinco mil sopas e papas reforçadas no âmbito da Semana Mundial da Mulher Rural e da Alimentação.
Abede Issufo Momade, ponto focal dos deslocados em Namachilo e presidente da associação Umodja — palavra em xumakonde que significa “união” — disse que o documento é um apelo urgente à ajuda humanitária. “Temos crianças órfãs, vulneráveis e com deficiência. Só gostaríamos que o nosso Governador nos ajudasse nessa parte. A carta é um choro, um pedido para que nós e as nossas crianças possamos ter, pelo menos, uma refeição condigna por mês, nem que seja duas vezes”, afirmou.
A situação descrita é dramática. Os deslocados relatam que passam dias sem comer e, quando conseguem, tratam-se de refeições precárias e sem valor nutritivo. “No último sábado, o único alimento disponível foi um prato de feijão sem sal”, contou um dos membros da comunidade.
Outros afirmam que chegam a contribuir entre si para organizar pequenas refeições. “Cada um que tinha feijão deu meio quilo até conseguirmos dez quilos de feijão-cute. Cozinhámos para as crianças festejarem um pouco. Mas estamos mal, sem xima, sem arroz. Nem açúcar tínhamos para melhorar aquele feijão”, lamentou outro deslocado.
As tentativas de recorrer à agricultura local também fracassaram. “Aqui em Namachilo tentamos trabalhar nas machambas, mas não conseguimos nada. Estamos no zero. Por isso, estamos a chorar”, acrescentou Abede Momade.
O chefe da localidade de Namachilo, Gelito Daniel, reconheceu as dificuldades e garantiu que o Governo tem procurado apoiar tanto deslocados como residentes. Revelou ainda que foi identificada uma área no Cabo Cavala para a prática agrícola, com vista a envolver os deslocados em actividades produtivas.
Segundo os registos locais, vivem actualmente em Muriaze mais de 2 mil deslocados de Cabo Delgado, cuja sobrevivência continua a depender de apoio alimentar urgente e da esperança em projectos de auto-sustento que ainda não se materializaram. José Luís