CULTURA
Legalizar a soruma? Entre tradição, risco e economia, Nampula continua sem resposta
A dúvida é real e atravessa várias gerações: a soruma — tradicionalmente usada por camponeses, crianças e artistas — deve continuar criminalizada ou ser legalizada com regras claras? Essa interrogação ganhou força em reflexões recentes surgidas no seio de académicos, jovens, artistas e empresários da cidade de Nampula, onde o debate sobre a Cannabis sativa deixou claro que Nampula ainda não tem respostas definitivas, mas carrega uma contradição de fundo entre a lei e a prática.
Enquanto o consumo e tráfico de soruma continuam a ser criminalizados pelo Estado, muitos reconhecem que o seu uso está enraizado no quotidiano rural e familiar. “É cultural vermos os mais velhos fumarem soruma para trabalhar nas machambas. E o ‘remédio da lua’, dado a crianças entre os 3 e os 7 anos, contém extractos da planta”, recorda um dos participantes. Para alguns, esse uso tradicional e terapêutico já constitui uma forma de legalização silenciosa, baseada na cultura, e não no sistema judicial.
A criminalização, argumentam, empurra muitos consumidores para o mercado paralelo e agrava o estigma. Ao mesmo tempo, a ideia de uma legalização total não colhe unanimidade: há receios sérios quanto aos riscos do consumo precoce, sobretudo entre adolescentes. Várias vozes defenderam que qualquer processo de regulamentação futura deve incluir limites de idade — a partir dos 25 anos — e avaliações de saúde mental, para evitar o agravamento de quadros psicológicos em jovens ainda em desenvolvimento neurológico.
Empresários presentes nessas trocas de opinião, algumas realizadas no Espaço Cultural Ruby, sublinharam os potenciais económicos da legalização da soruma, considerando que Moçambique possui terras férteis e clima favorável à produção controlada. “Há países que já lucram milhões com exportação de Cannabis sativa. Por que não nós, que temos melhores condições?”, questionou uma participante ligada ao sector agrário.
No entanto, entre os jovens, predomina o ceticismo. “Temos vícios graves com álcool e cigarro. A maioria da população é jovem e vulnerável. Se legalizarem a soruma, o descontrolo pode aumentar, mesmo com regras”, alertou um estudante universitário. A soruma, para ele, pode abrir portas para dependências ainda mais profundas.
A opinião de artistas também surgiu com força. Um músico, que se diz consumidor há mais de 20 anos, revelou que usa a planta para fins criativos e concentração. “Ajuda-me a trabalhar, a compor, a pensar. Mas precisa de controlo, senão vira vício. Se legalizarem, até pode perder o apelo clandestino e reduzir o consumo.”
O sentimento que ficou dessas conversas é de inquietação partilhada: Moçambique vive um impasse entre a tradição que tolera e a legislação que reprime; entre o potencial económico e os riscos sociais; entre o uso criativo e o consumo nocivo. Não há ainda conclusões fechadas, mas cresce a consciência de que a soruma não é apenas uma droga — é um espelho da tensão entre cultura, juventude, saúde pública e economia. Daniela Caetano e Redacção