OPINIÃO

Irão em chamas — entre a indignação popular e a responsabilidade das organizações da sociedade civil

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As manifestações que sacodem o Irão há duas semanas consecutivas, com um saldo trágico de mais de 192 mortos segundo a ONG Iran Human Rights, revelam um país mergulhado numa profunda crise social, económica e política. O aumento do custo de vida foi o rastilho, mas a resposta do Estado — repressão violenta, corte prolongado da internet e ameaças explícitas de pena de morte — expôs, mais uma vez, a rigidez de um regime que governa pelo medo.

Contudo, para além da brutalidade estatal, impõe-se uma reflexão crítica e incómoda sobre o papel de certas organizações da sociedade civil que, sob o discurso da defesa dos direitos humanos e da mobilização popular, acabam por arrastar o povo para cenários de altíssimo risco, sem mecanismos reais de proteção, estratégia clara ou responsabilidade pelas consequências.

É inegável que a sociedade civil tem um papel histórico e legítimo na denúncia das injustiças e na mobilização cívica. Porém, no contexto iraniano — marcado por um sistema judicial severo, acusações religiosas extremas como “inimigos de Deus” (mohareb) e a aplicação da pena capital — incitar manifestações contínuas, sem avaliar o custo humano, pode transformar a legítima indignação popular numa armadilha mortal para cidadãos comuns, sobretudo jovens e camadas mais pobres.

Muitas destas organizações limitam-se a convocar protestos, amplificar narrativas nas redes sociais e recolher visibilidade internacional, mas desaparecem quando surgem os mortos, os presos, os condenados à forca e as famílias destruídas. O ativismo irresponsável, quando não acompanhado de planos de mitigação, canais de negociação, apoio jurídico e estratégias de pressão internacional eficazes, torna-se cúmplice indireto da tragédia.

É moralmente questionável mobilizar massas num Estado que já deixou claro que responderá com balas, tribunais revolucionários e execuções públicas, sem garantir qualquer salvaguarda real aos manifestantes. A coragem do povo não pode ser explorada como capital político ou mediático.

A verdadeira responsabilidade das organizações da sociedade civil deveria ser:

proteger vidas antes de slogans;

informar com realismo sobre os riscos;

priorizar estratégias diplomáticas e jurídicas;

pressionar a comunidade internacional de forma coordenada; e não transformar o sofrimento popular num palco de heroísmo vazio.

No Irão de hoje, quem chama o povo à rua sem assumir as consequências partilha a responsabilidade moral pelas mortes que se seguem. A luta por justiça não pode ser construída sobre cemitérios nem sobre promessas abstratas de liberdade futura.

Quando a mobilização popular se converte em sacrifício humano previsível, deixa de ser resistência consciente e passa a ser negligência política travestida de ativismo.

✍️ Luís Vasconcelos

Um Olhar Atento

 

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