POLÍTICA
Governo replica modelo de Lunga e aposta em tractores para transporte público rural em todo o país
O Governo de Moçambique vai adquirir 100 tractores com atrelados modificados para o transporte de passageiros nas zonas rurais, replicando a experiência iniciada em 2024 em Lunga, no distrito de Mossuril, na província de Nampula, onde a ausência de transporte público resultou em sucessivos naufrágios — incluindo um ocorrido em Abril daquele ano, que causou a morte de cerca de 100 pessoas durante a travessia para a Ilha de Moçambique.
A decisão de expandir este modelo foi anunciada um ano após a entrega à comunidade de Lunga, numa tentativa de garantir mobilidade segura em regiões com estradas em péssimas condições. A medida é coordenada pelo Fundo de Desenvolvimento dos Transportes e Comunicações, que também prevê a aquisição de 390 autocarros para todo o país até ao final deste ano, como parte de um plano de emergência para aliviar a crise de transporte.
Segundo apurou o Jornal Rigor, a introdução de tractor de transporte colectivo em Lunga melhorou substancialmente o transporte local, antes dominado por mototáxis, canoas improvisadas e viaturas informais. “Utilizávamos canoas ou carros que passavam à noite para chegar à Ilha. Agora, com os tractores, sentimos que o Governo nos considera. A estrada é difícil, mas pelo menos temos como sair com segurança”, contou Maria Mussa, moradora do bairro Mwangomi.
Os primeiros dois tractores foram entregues em Julho de 2024, no auge das reclamações populares pela falta de alternativas seguras de deslocação. Desde então, segundo líderes comunitários, o receio de embarcações precárias diminuiu drasticamente, permitindo maior circulação entre as comunidades isoladas e a sede distrital.
Entretanto, a medida não escapa a críticas. Nas redes sociais, choveram memes e protestos sobre o custo da iniciativa. Um documento oficial, a que o Rigor teve acesso, revela que o Governo de Moçambique adjudicou cinco lotes distintos no âmbito do plano de expansão do transporte público e rural. O Lote 1 diz respeito à aquisição de autocarros de grande porte, movidos a Gás Natural Veicular (GNV), destinados à Área Metropolitana de Maputo. O contrato foi atribuído à empresa Simba Group, pelo valor de 585 milhões de meticais, já com IVA incluído. No Lote 2, também adjudicado à Simba Group, estão contemplados autocarros de médio porte a GNV, igualmente para Maputo, num total de 247 milhões de meticais.
O Lote 3 refere-se a autocarros de médio porte movidos a diesel, que deverão ser distribuídos pelas províncias do país. Esta componente foi atribuída à Yutong Bus, Lda., pelo montante de 490.373.000,00 meticais. Já o Lote 4, um dos mais comentados nas redes sociais, contempla veículos típicos adaptados para o transporte público nas zonas rurais, e foi adjudicado à MHL Auto, Lda., por 650 milhões de meticais. Finalmente, o Lote 5 prevê a aquisição de autocarros para transporte de funcionários públicos, também adjudicado à Simba Group, no valor de 163,8 milhões de meticais.
Apesar das críticas em torno dos custos envolvidos, o Governo defende que a iniciativa representa um passo decisivo para promover a inclusão territorial e responder às necessidades de mobilidade nas zonas rurais. Faizal Raimo