ECONOMIA
Fluxo de passageiros inverte-se: moradores fogem, mas quase ninguém viaja para Memba
Para Eráti, o movimento é tímido: poucas saídas e longas horas de espera
O fluxo de passageiros entre a cidade de Nampula e o distrito de Memba sofreu uma inversão drástica após as últimas incursões terroristas. Enquanto centenas de pessoas fogem das zonas afectadas em busca de segurança, quase ninguém viaja no sentido contrário, deixando transportadores sem clientes e com prejuízos que se acumulam a cada dia.
Na estação de viaturas da zona do Nasser, onde normalmente o movimento é intenso, o cenário agora é de completo vazio. Carros parados, motoristas inquietos e apenas chegadas esporádicas de famílias que abandonam Memba e Eráti. As partidas, segundo os transportadores, tornaram-se raras.
“As pessoas estão a sair, ninguém está a ir. O movimento deixou de ser normal”, explicou um dos motoristas, acrescentando que o medo e a instabilidade transformaram uma rota tradicionalmente movimentada numa linha quase paralisada.
Para Quisito Martins, transportador há vários anos na rota, a quebra da actividade não é apenas de passageiros, mas também comercial.
“O movimento que ficou lá não é de negócio, não é de nada. É só tristeza. Nós dependemos dos comerciantes, mas agora ninguém sai daqui para lá. Só saem de lá para cá”, lamentou.
A falta de passageiros fez disparar o tempo de espera para encher uma viatura. Antes dos ataques, bastavam 30 a 45 minutos. Hoje, os motoristas afirmam que esperam duas, três, quatro e até cinco horas, muitas vezes sem sucesso.
“Agora é normal passar cinco horas sem conseguir encher o carro. Antigamente, era rápido. Hoje ninguém quer ir para Memba”, reforçou outro transportador.
Apesar da queda drástica na procura, os preços das viagens mantêm-se inalterados na cidade. Mas no sentido inverso, de Memba para Nampula, passageiros relatam casos de especulação, com motoristas a cobrarem valores mais altos para retirar pessoas que tentam fugir dos ataques.
Durante a permanência da nossa reportagem no local, das cinco viaturas que aguardavam passageiros, apenas uma conseguiu reunir clientes suficientes para arrancar em direcção a Namapa. Todas as outras permaneceram estacionadas durante horas.
A inversão do fluxo de mobilidade está a provocar efeitos em cadeia: quebra do comércio, paralisação do transporte de produtos alimentares, queda de rendimentos e medo generalizado. Transportadores temem que, se a insegurança persistir, muitos abandonem definitivamente a rota.
Enquanto isso, o parque de Nacer transformou-se num retracto claro da violência em Memba: chegam os que fogem, mas quase ninguém quer voltar para trás. José Luís