SOCIEDADE
Falta de proteção e tratamentos torna o albinismo fatal em Moçambique
A ausência de proteção adequada contra o sol e a inexistência de tratamentos especializados como a radioterapia estão a transformar o albinismo numa sentença silenciosa de morte em Moçambique. A dura realidade foi exposta durante uma recente campanha de saúde promovida pelo Hospital Central de Nampula, com o apoio da organização não-governamental espanhola África Direto, onde três jovens com idades entre 18 e 24 anos foram diagnosticados com cancro de pele em fase terminal.
“É devastador dizer a um jovem de 20 anos que, por causa do sol e da falta de proteção, não vai conseguir cumprir os seus sonhos”, afirmou Cata Lavandeira, coordenadora de missões médicas da África Direto. “Temos casos em que os tumores já se espalharam. Mesmo quando conseguimos remover o que está visível, as feridas internas permanecem. E Moçambique não tem radioterapia. Os tratamentos possíveis no exterior são inacessíveis — caros, muito custosos.”
A missão, que decorre pela primeira vez em Nampula, já avaliou 40 pacientes com albinismo em apenas quatro dias. Onze foram submetidos a cirurgia, e 20 tumores removidos. Mas, para três dos casos mais críticos, a ajuda chegou tarde. “Um dos pacientes que vimos esta semana conhecemo-lo há um ano. Só agora conseguiu chegar ao hospital. Está numa situação muito evoluída”, lamentou Lavandeira.
Mais do que um problema clínico, a médica denuncia uma crise de desinformação, estigma e desigualdade. “A prevenção não é apenas médica. Pessoas com albinismo sofrem muitos mitos, muitas discriminações. Em Espanha, uma pessoa com albinismo vive normalmente. Aqui, a esperança de vida não chega aos 40 anos. Por quê? Porque lá há proteção solar, chapéus, cremes. Aqui trabalham na machamba, sem nenhuma proteção.”
Segundo estimativas, Moçambique poderá ter até 30 mil pessoas com albinismo — embora o país não possua dados oficiais fiáveis. Em Nampula, província mais populosa, há apenas um dermatologista no sistema público, tornando quase impossível o rastreio e tratamento precoce de lesões cutâneas.
“Viemos como voluntários. Temos os nossos trabalhos e famílias em Espanha. Esta missão só foi possível graças à farmacêutica SDIM, que nos ajudou a trazer cremes fotoprotetores gratuitos. Mas somos poucos e não conseguimos chegar a todos os distritos”, explica a coordenadora.
A missão inclui também acções educativas e desmistificação de crenças perigosas. “Quando os pacientes chegam, fazemos uma triagem. Se têm lesões precancerosas, aplicamos crioterapia. Se já são tumores, operamos. Depois damos palestras, explicamos que o peixe não faz ferida — o que faz ferida é o sol. A falta de informação também mata”, alerta Lavandeira.
No último dia da missão estavam previstas mais quatro cirurgias e a triagem de outros dez casos. Embora todos os pacientes já intervencionados estejam estáveis, a médica avisa: “Se não continuarem a usar cremes, chapéus, roupas compridas, em poucos meses o cancro volta.”
Felizmente, entre as crianças examinadas, nenhuma precisou de cirurgia. “Têm lesões mais pequenas, que com cremes e acompanhamento podem ser controladas. O fundamental é educar as famílias, ensinar a proteger desde cedo. Aplicar creme de duas em duas horas, evitar o sol, usar sombrinha — isso salva vidas.” Faizal Raimo