SOCIEDADE
Falta de políticas e ganância por terrenos empurram população a ocupações ilegais, alerta urbanista
A recente onda de ocupações ilegais de terrenos em Nampula é resultado directo da falta de políticas públicas de habitação, da ganância por grandes extensões de terra e da ausência de articulação entre o Estado, o sector privado e a sociedade civil. O alerta é do Professor Doutor Miguel Ali, investigador e docente, especializado em Desenvolvimento Urbano.
“Estamos a registar esses casos e isso já era de esperar. O cenário actual da cidade já apontava para este tipo de situações de apropriação de terra”, afirmou o académico em entrevista ao Jornal Rigor.
Para Miguel Ali, a população não invade terrenos por escolha, mas por desespero e falta de alternativas habitacionais dignas:
“As pessoas não invadem porque querem. Invadem porque não têm alternativa. Vivem há anos aqui sem acesso a um espaço digno para morar.”
Entre os casos mais evidentes está o terreno das Irmãs Servas de Maria do Mosteiro Mater Dei, bem como áreas junto ao Seminário Propedêutico Mater Apostolorum e ao Instituto Filosófico São Carlos Lwanga, onde surgiram construções espontâneas em propriedades pertencentes a congregações religiosas. Para o urbanista, estes episódios resultam da especulação fundiária, num contexto onde várias parcelas de terra permanecem há décadas sem uso.
“Muitos espaços estão abandonados há mais de 20 anos e sem qualquer utilização. Isso cria espaço para ocupações e desorganização urbana.”
O professor critica abertamente o comportamento do sector privado, acusando-o de insensibilidade social num momento de crise habitacional:
“O sector privado não se preocupa com questões sociais. Quer ter o seu espaço, mesmo que não o utilize – nem que sejam 30, 40 hectares. E quando o povo tenta ocupar, é criminalizado.”
Para Miguel Ali, a única saída passa por um modelo de urbanização inclusiva, construído a partir da cooperação entre diferentes sectores da sociedade:
“Precisamos unir o público, o privado, as universidades e a sociedade civil. Só assim poderemos responder de forma estruturada ao crescimento urbano.”
O académico acrescenta que o problema vai além da habitação e atinge a própria forma como a cidade se expande:
“Com políticas públicas consistentes de urbanização, envolvendo o município, o Estado, as universidades e a sociedade civil, poderíamos planificar melhor os espaços. Mas o que temos é uma total desconexão.”
Miguel Ali conclui defendendo a urgência de uma resposta coordenada para travar o avanço da desorganização urbana:
“Sem essa articulação, continuaremos a assistir a ocupações irregulares, crescimento desordenado e aumento de zonas propensas à criminalidade. A cidade está a crescer por necessidade, mas sem direcção.” Faizal Raimo
João Nasseco
Julho 30, 2025 at 4:48 pm
Está tudo dito, porém, ariscu-me, a dizer que, em papel e gaveta, as políticas públicas atinentes a todo um conjunto de serviços básicos que os cidadãos têm por direito estão bem desenhadas, só que elas ignoradas quando chega a vez de torná-las operacionais. Aliás, o investigador Miguel di-lo muito bem na sua argumentação quando traz a ganância como como o pulsar pela fragilidade governativa que abraça fortemente o nepotismo espelho factual do neocolonialismo em Moçambique. Para todos os efeitos, as nossas investigações e os resultados dessas não devem deixar de ser mobília nos gabinetes dos governantes. É simples comentários…
João Nasseco
Julho 30, 2025 at 4:51 pm
Digo:… devem deixar de ser..
José Luzia
Agosto 1, 2025 at 5:13 pm
Como é evidente concordo por inteiro tanto com a argumentação do prof Miguel Ali como com o comentário de João Nasseco.
As invasões aqui na Missão do Marrere já me deram oportunidade de dialogar com 4 grupos de invasores. Não tenho tido nenhuma dificuldade em lhes fazer compreender que o seu direito de acesso ao terreno tem que passar pelo diálogo com o Conselho Municipal… Tenho aconselhado as pessoas a fazerem listas e a identificarem uma comissão que as represente.
Espero, assim, ajudar o Conselho Municipal a encontrar um modus operandi realmente político.
Saliento que a Missão do Marrere já disponibilizou centenas de ha e, estou certo, estará disponível para cooperar nessa linha devendo, porém, acautelar terrenos bastantes que lhe permitam responder às necessidades da sua actividade nos próximos 10 ou mesmo 20 anos.
Não esqueçamos que os desafios da educação escolar e nao-rscolar deverão ser muito exigentes… O modelo de Escola Polivalente que criamos há 30 anos exige não só imaginação pedagógica mas também meios financeiros e terrenos.