ECONOMIA
Especialistas defendem ordenamento territorial e acções permanentes para travar inundações em Nampula
Especialistas de ambiente defendem a implementação urgente de políticas de ordenamento territorial, criação de alternativas produtivas nas zonas altas e adopção de acções permanentes de prevenção, como medidas essenciais para reduzir as perdas humanas e materiais provocadas pelas inundações que continuam a afectar zonas baixas e margens dos rios da província de Nampula. As propostas incluem o reassentamento organizado de famílias, instalação de sistemas simples de regadio e tecnologias de irrigação capazes de retirar as populações das áreas de maior risco.
O professor Aiúba Ali, da Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Lúrio, considera que o país precisa de um planeamento territorial claro e rigoroso. “Se tivéssemos bons planos de ordenamento territorial, sobretudo para as zonas que ciclicamente são afectadas pelas enxurradas, poderíamos minimizar o impacto. Uma política de ordenamento permite identificar locais seguros para habitação, zonas para agricultura e áreas para pastorícia. É uma solução fundamental”, afirmou.
O académico sublinha que a prevenção não deve ser vista como responsabilidade exclusiva do Estado. “Todos somos chamados a falar com estas populações para que optem por viver em lugares mais seguros. O governo tem o seu papel, mas a sociedade civil, os jovens, as mulheres e os líderes comunitários também devem intervir para evitar danos materiais e humanos nas famílias que, ano após ano, sofrem com as enxurradas.”
O ambientalista Bartolomeu Romane reforça que grande parte das famílias permanece nas zonas baixas por necessidade económica e falta de alternativas. “As populações dizem que ficam nas zonas baixas porque conseguem colher alguma coisa durante a época seca para sustentar as famílias. A fome leva-as a permanecer em locais de risco”, explicou.
Romane alerta que campanhas pontuais de sensibilização não resolvem o problema e defende acções permanentes e continuadas. “É uma actividade que deve ser constante. O governo, em parceria com organizações e projectos, deve levar informação e, acima de tudo, oferecer alternativas. Criar sistemas de regadio nas zonas altas pode retirar as pessoas das zonas baixas. Tem de haver um mecanismo concreto para acomodar estas comunidades.”
O ambientalista propõe igualmente o uso de tecnologias simples de irrigação, como bombas manuais, para permitir produção agrícola segura longe das margens dos rios. “O governo deve empenhar-se em ajudar estas famílias a produzir nas zonas altas, usando tecnologias acessíveis para levar água do rio a áreas elevadas. Esta é uma forma prática de reduzir o impacto das cheias”, advertiu.
Os especialistas defendem que o actual modelo, baseado em respostas de emergência e campanhas esporádicas, já não é suficiente. A solução, dizem, passa por uma abordagem integrada e permanente, capaz de proteger vidas, salvaguardar bens e reduzir, de forma sustentável, a vulnerabilidade das comunidades rurais durante a época chuvosa. Vânia Jacinto