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Entre expectativas e desafios da conversa entre o PR e Venâncio Mondlane: Analistas esperam que o diálogo supere as mágoas históricas para restaurar a paz

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Analistas políticos e professores universitários afirmam que, para que o diálogo iniciado entre o Presidente da República e Venâncio Mondlane produza resultados, é necessário que vá além das aparências políticas e trate das mágoas históricas da guerra e dos conflitos pós-eleitorais.

Assim, Marchal Manufredo, Pedrito Cambrão e Arcénio Cuco   consideram que o diálogo entre o Governo e a oposição, especialmente com figuras como Venâncio Mondlane, é essencial para restaurar a estabilidade em Moçambique. Por isso, reforçam os apelos para ser um diálogo genuíno.

“Se quisermos um diálogo verdadeiro, que seja de verdade e reconciliação”, Marchal Manufredo, analista político

É provável que o que está a acontecer seja uma manobra política da Frelimo. A Frelimo estava a ser pressionada pela comunidade internacional e pelos analistas para adoptar uma postura de diálogo.

No entanto, isso pode ser apenas uma táctica para mostrar que estão dispostos ao consenso, quando, na verdade, não buscam o consenso genuíno; o que querem é maximizar as retaliações sociais que têm vindo a ocorrer. Esse início pode ser interpretado como uma busca incansável pelo consenso, mas em Moçambique, a democracia não se faz por amor; fazemos democracia porque carregamos as mágoas das guerras de 16 anos.

Por isso, escrevi a Venâncio Mondlane, dizendo-lhe que, se ele quisesse um diálogo, este deveria ser genuíno e voltado para a reconciliação. A verdade e a reconciliação significam apagar as mágoas não resolvidas pela guerra civil e pelos conflitos pós-eleitorais recentes, com o objectivo de restaurar a confiança entre as instituições públicas e o povo.

O melhor diálogo seria aquele que assegurasse confiança entre o Estado e o povo moçambicano. No entanto, as instituições públicas em Moçambique ainda não têm credibilidade suficiente para merecer a confiança da população. O Estado perdeu o poder de governação e a capacidade de responder adequadamente às necessidades da população. As manifestações actuais mostram isso, pois o Estado tem sido forçado a tomar medidas de contenção para lidar com elas, mas ainda não está a responder ao verdadeiro projecto popular”.

“Esse diálogo já deveria ter ocorrido há muito tempo” Prof. Doutor Pedrito Cambrão, docente Universitário

Esse diálogo já deveria ter ocorrido há muito tempo. A crise pós-eleitoral, provocada pela não aceitação dos resultados por alguns partidos da oposição, especialmente por Venâncio, gerou manifestações violentas, mortes e destruição de infraestruturas. Naquela época, defendíamos que o Presidente da República deveria ter iniciado uma conversa com Venâncio.

Mesmo com a criação de uma plataforma de diálogo com partidos como MDM, RENAMO e PODEMOS, Venâncio era quem mobilizava as multidões e enfrentava a repressão das forças de segurança, com mortes a lamentar. Era urgente um encontro naquela altura.

Com o novo presidente, esperava-se que usasse seu poder para promover o diálogo e buscar soluções, especialmente com Venâncio. No entanto, apesar de ele ter se tornado presidente do partido, não houve esse encontro.

Isso gerou frustração, pois medidas de contenção e empréstimos para empresários não resolveriam sem estabilidade. O diálogo com Venâncio poderia, ao menos, trazer alguma paz, com tréguas nas manifestações violentas.

O diálogo é o único caminho. O Acordo Geral de Paz levou anos para ser assinado e, apesar das dificuldades, foi por meio do diálogo que superamos a guerra. Hoje, o cenário é o mesmo: diálogo, diálogo, diálogo. A sociedade civil, académicos e cidadãos pedem por isso a cada semana.

O bom senso e as cedências são necessários para restaurar a coesão social e harmonia, pois a guerra só traz morte. O que precisamos agora é conversar, com os problemas da pátria acima de interesses pessoais e partidários.

“O encontro com Venâncio é o caminho para a estabilidade de Moçambique”, Prof. Doutor Arcénio Cuco, docente Universitário

O diálogo com Venâncio não é algo novo. O antigo presidente já havia criado bases para esse processo, mas houve dificuldades nos primeiros contactos, principalmente porque Venâncio tentou impor as regras para as conversas. Acredito que os primeiros encontros devem ser fundamentais para definir os termos do diálogo.

Vejo o encontro entre o presidente e Venâncio como uma oportunidade esperada por todos os moçambicanos para restaurar a estabilidade no país. Não há nação que consiga prosperar em um cenário de violência recorrente, como o que temos vivenciado desde as últimas eleições. É necessário que os termos de referência já tenham sido estabelecidos para os próximos diálogos serem eficazes e frutíferos.

Havia uma grande ansiedade entre os moçambicanos, pois muitos defendiam que o diálogo não seria inclusivo sem a presença de Venâncio. O presidente Chapo, no discurso de posse, já havia afirmado que estava disposto a dialogar com todos que desejassem ver o país prosperar. Ele também ressaltou a possibilidade de amnistiar aqueles que foram condenados por conta das manifestações de 2022, algo que se reflete nas acções actuais.

Embora algumas vozes critiquem o diálogo com Venâncio, acusando-o de ser uma manobra política, acredito que devemos dar crédito ao presidente Chapo. Ele tem a oportunidade de conduzir o diálogo de maneira diferente e eficaz, com o objetivo de alcançar um acordo que promova a convivência pacífica e harmónica entre os moçambicanos.

Antes de questionarmos por que o diálogo demorou, é importante reflectirmos se havia condições para isso. Nos primeiros dias de governo, será que Chapo teve tempo para pensar em um Moçambique diferente? O que mudou desde então? Como qualquer situação difícil, há momentos de crise que passam, e acredito que ele chegou à conclusão de que agora é o momento de agir de forma controlada e eficaz. Daniel Caetano

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