OPINIÃO

Entre a Areia que Sai e o Diálogo que Não Entra

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Há assuntos que cansam as autoridades, desgastam uniformes e adoecem paciências. Em Angoche, um deles tem nome, forma e peso: a areia que sai, mas o entendimento não volta.

Tudo começou com um entendimento, daqueles que são falados em reuniões, mas que ninguém vê no papel. Um acordo entre o empreiteiro do porto e o município para a extração de areia necessária às obras. Nada contra o desenvolvimento; Angoche quer crescer, quer porto, quer estradas, quer futuro. O problema é o tamanho das falhas que vieram depois.

Duas vezes o município convocou formalmente os representantes do empreiteiro. E ainda houve uma terceira tentativa, verbal, quase como quem dá a última gota de boa fé.
Mas do outro lado… silêncio. Um silêncio tão espesso quanto a poeira que os camiões levantam na estrada. Nenhuma resposta. Nenhuma presença. Nenhuma explicação.

E quando o diálogo foge, a autoridade é obrigada a agir. O município, cansado de falar sozinho, teve de impedir a circulação dos camiões que transportam a areia, não por guerra, mas para criar caminho para a conversa. Porque em Angoche, às vezes é preciso parar os motores para ver se as palavras conseguem finalmente andar.

Mas esta falha de comunicação não é apenas um problema administrativo é o reflexo de algo maior. Uma ponte para outra dor: as estradas do município estão sendo destruídas pelas mesmas viaturas que prometem progresso. O peso dos camiões abre crateras, fere o asfalto, engole pneus e paciência. E quando se pergunta sobre a reposição das vias, a resposta é sempre a mesma: “Depois vamos repor.” Depois. A palavra favorita de quem foge das garantias.

O município quer acreditar. A população quer acreditar. Mas como confiar no entendimento de repor estradas se nem o entendimento básico de responder a uma convocatória é cumprido? Como acreditar na reposição do que se destrói se o acordo celebrado não é público, não é claro e não dá garantias de nada, especialmente quando as falhas de comunicação são o único sinal visível?

O que deveria ser parceria vira opacidade.
O que deveria ser compromisso vira expectativa.
O que deveria ser entendimento vira desgaste.

E assim, Angoche continua a viver o paradoxo do desenvolvimento: constrói-se um porto moderno enquanto as estradas ao lado afundam. Tira-se areia para levantar progresso, mas levanta-se poeira sobre as obrigações. No fim, fica a reflexão que ninguém queria verbalizar: quando quem assina o entendimento não entende a responsabilidade, o município tem de travar o camião para ver se o diálogo finalmente arranca.

 

 

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