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Empoderamento feminino: entre avanços e desafios persistentes em Nampula

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Nos últimos tempos, o empoderamento feminino tem sido amplamente debatido em Moçambique, tornando-se um dos temas centrais em discussões que envolvem o fortalecimento da mulher nos âmbitos social, económico e político.

Nesses debates, a mulher é cada vez mais apresentada como um ser autónomo, com capacidade para se sustentar, cuidar da sua família e provocar mudanças reais na sua comunidade. No entanto, apesar dos avanços, persistem desafios que remetem a desigualdades estruturais ainda não superadas.

Uma reportagem do Rigor, com base em entrevistas realizadas com várias mulheres na cidade de Nampula, mostra que muitos dos obstáculos enfrentados por elas continuam semelhantes aos de décadas passadas. Ainda que hoje exista mais espaço para a mulher se expressar e trabalhar, essas oportunidades vêm acompanhadas de limitações e desigualdades significativas.

“Ser mulher é, por si só, um desafio”

Para Zainaty Jorge, empreendedora na área de doces e salgados, as dificuldades enfrentadas pelas mulheres estão ligadas não só ao mercado de trabalho, mas também às responsabilidades impostas pela sociedade.

“No mundo dos negócios, os desafios existem para todos. Mas a mulher, só por ser mulher, enfrenta obstáculos acrescidos. Antes de sair para vender, ela tem de deixar tudo organizado em casa. Esse esforço adicional, que acontece fora do espaço profissional, já a coloca em desvantagem. A mulher carrega mais peso, simplesmente pela natureza daquilo que se espera dela.”

Empreender como resposta à falta de emprego

Ancha Marinho, artesã de roupas para recém-nascidos, viu no empreendedorismo uma alternativa à falta de emprego formal.

“O que me levou a começar foi o desemprego. Lembrei-me de que sabia costurar e decidi transformar essa habilidade numa fonte de rendimento. Tem sido difícil, porque o mercado está saturado e há escassez de clientes. Muitas mulheres estão a ser obrigadas a reinventar-se para sobreviver.”

Independência como meta, apesar dos obstáculos

Para Márcia Rita António Alves de Carvalho, funcionária pública e proprietária de uma marca de bolsas artesanais, o empreendedorismo é uma escolha por paixão e independência financeira:

“Ser empreendedora hoje não é fácil. O mercado está fechado, há muitos obstáculos, mas não podemos desistir. Entrei para este mundo porque gosto de arte e queria criar uma base sólida para o meu futuro. Apesar das dificuldades, continuo focada nos meus objectivos.”

Ser jovem, mulher e querer mais: uma batalha dupla

Recém-formada em Administração Pública, Cláudia Janete Gove fala sobre os desafios de ser uma mulher jovem que pretende ter impacto na sua comunidade.

“É difícil conciliar o ser mulher com o ser trabalhadora. Tudo recai sobre nós: a direcção do lar, as responsabilidades familiares. Crescemos com a ideia de que o lugar da mulher é dentro de casa, mas eu quero mais. Quero mostrar que é possível ser uma jovem independente, criar novas formas de pensar e gerar mudança mesmo sem o amparo da família ou de um marido.”

Um salão, um espaço de acolhimento

Celma Sulemane, dona de um salão de beleza no bairro Muhivire, conta como o seu espaço se tornou mais do que um local de estética — um lugar de apoio emocional para outras mulheres.

“Sempre gostei de cuidar do cabelo das outras mulheres. Comecei em casa, a fazer tranças nas vizinhas. Em 2021, com ajuda da minha irmã, consegui alugar um espaço e abrir o meu salão. Muitos duvidam que uma jovem possa gerir um negócio sozinha. Já me perguntaram várias vezes se o salão é mesmo meu. Mas continuo firme, porque vejo o impacto: aqui, as mulheres vêm cuidar de si, mas também desabafar. É um espaço onde somos livres, onde nos fortalecemos. O meu sonho é expandir e abrir uma unidade no centro da cidade.” Daniela Caetano

 

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