OPINIÃO

E se a independência não vier mais?

Publicado há

aos

E se nos mentiram?

E se a tal independência, a verdadeira, foi promessa de campanha da história que nunca chegou a tempo?

Cinquenta anos depois, a pergunta já não é provocação — é lamento.

Porque parece que estamos todos à espera de algo que talvez nunca venha. A independência que sonhámos como liberdade plena — liberdade de decidir, de viver com dignidade, de construir o nosso amanhã com mãos limpas — essa continua encalhada na beira do caminho, a olhar-nos de longe, como quem perdeu a vontade de vir.

E se ela não vier mais?

Continuaremos a decorar discursos prontos enquanto os hospitais continuam sem medicamentos? A encher palcos de bandeiras enquanto os jovens, formados e frustrados, perdem a fé na terra que os viu nascer? A cantar “celebrações” enquanto a pobreza dança sem vergonha no centro das nossas vidas?

A independência chegou com fanfarras, sim. Mas também com feridas mal tratadas. Trocou-se o chicote pelo silêncio institucional. Trocaram-se os senhores brancos por chefes negros, mas o povo? O povo continuou na fila — de emprego, de consulta, de transporte, de justiça.

E se a independência não vier mais, o que fazemos com esse vazio no peito?

Vamos continuar a chamar de “crescimento” o que só alimenta uns poucos? Vamos fingir que somos um país independente enquanto somos reféns da ajuda externa, do perdão da dívida, do patrocínio do estrangeiro até para plantar milho?

Ou vamos finalmente admitir que liberdade não é só ausência de colónia — é presença de consciência, de ética, de verdade?

E se ela não vier, talvez tenhamos que parar de esperar. Parar de esperar por salvadores de palanque e começar a ser a mudança que cantamos no hino. Talvez tenhamos que descolonizar primeiro a nossa cabeça, os nossos hábitos, o nosso medo de enfrentar os donos do país que se julgam deuses.

Talvez tenhamos que perceber que a independência não chega — ela se constrói. Dia a dia. Escolha por escolha. Na honestidade que mostramos quando ninguém vê. No voto que não se vende. Na recusa de calar quando calar seria traição à verdade.

E se a independência não vier mais? Talvez sejamos nós a ir ao encontro dela. Talvez sejamos nós a provocá-la, a trazê-la de volta das promessas e a plantá-la no chão fértil da coragem.

Porque um povo que já suportou tanto — colonização, guerras, fome, promessas quebradas, e o silêncio cúmplice das elites — não pode contentar-se apenas com memória de datas. Não basta pendurar a bandeira na varanda e repetir slogans em uníssono, ano após ano. Não é suficiente colocar flores no monumento da independência se os filhos da pátria ainda morrem de doenças tratáveis, se os camponeses ainda trocam milho por sabão, se os jovens, formados e frustrados, continuam a fazer fila em consulados estrangeiros, sonhando com dignidade lá onde não nasceram.

Este povo, que caminhou descalço, mas com o coração cheio de esperança; que lutou com enxadas, catanas e ideias; que aguentou o peso da austeridade, dos programas de ajustamento, das dívidas escondidas — esse povo merece muito mais. Merece mais do que desfiles coreografados para câmaras de televisão. Mais do que discursos escritos por técnicos que nunca suaram numa fila de hospital.

O 25 de Junho foi uma promessa — um juramento colectivo de que nunca mais viveríamos como subalternos na nossa própria casa. Que a terra seria para quem nela trabalha. Que a educação libertaria. Que a saúde chegaria a todos. Que o poder deixaria de ser trono e passaria a ser serviço. Foi esse o sonho.

Mas o que se fez dessa promessa? Por que é que, meio século depois, a liberdade ainda é luxo e não direito? Por que é que ser honesto ainda é excepção e não regra? Por que é que falar a verdade parece mais perigoso do que calar e obedecer?

O povo moçambicano não pede milagres. Pede coerência. Pede respeito. Pede pão com dignidade e não com favor. Pede escolas onde se ensina a pensar, e não apenas a repetir. Pede um Estado que não trate o cidadão como súbdito, mas como senhor da democracia.

Porque quem já suportou tanto tem o direito — sim, o direito! — de viver com alegria. De celebrar não só uma data no calendário, mas conquistas reais: água limpa na torneira, emprego justo, justiça imparcial, paz com dignidade. O povo merece viver o que a independência prometeu — viver em liberdade, viver com segurança, viver com orgulho de chamar Moçambique de seu.

E esse dia ainda pode chegar. Mas para isso, precisamos parar de recordar o 25 de Junho como um fim — e começá-lo a viver como um começo inacabado. Como uma dívida sagrada com aqueles que tombaram sem ver o sonho realizado. E uma responsabilidade com os que ainda resistem, aqui, agora, com o coração cheio de esperança, apesar de tudo.

 

 

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Mais Lidas

Exit mobile version