OPINIÃO

“Da Bomba à Rua: O Mercado da Escassez”

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Há coisas que não precisam de anúncio para doer. Basta viver. Em Moçambique, a crise de combustíveis já não é uma notícia é uma rotina que pesa no corpo de quem precisa se mover todos os dias. Em Angoche, fala-se hoje de gasolina a 300 meticais o litro no circuito informal. Um número que já não assusta pela surpresa, mas pelo hábito com que começa a ser aceito. E quando a bomba falha, nasce a rua. Quando a rua falha, nasce o improviso. E quando o improviso domina, a regra deixa de ser regra.

Há quem diga que o combustível já não se compra apenas com dinheiro compra-se com contactos, com paciência, com silêncio, e às vezes com humilhação. Num dia comum, um cidadão tentou abastecer 10 litros. Pagou 2.500 meticais. Noutro dia, 17 litros custaram 4.590 meticais. Não houve explicação clara, apenas aquele olhar que diz: “é o que há”.

E entre o “há” e o “não há”, cresce uma economia paralela que poucos conseguem explicar, mas muitos conseguem sentir. Em certos postos, como se comenta em voz baixa, a chegada ao combustível depende menos da fila e mais de uma espécie de ligação invisível. Quem tem acesso, entra. Quem não tem, espera. Ou desiste.

Há ainda relatos de que, durante a noite sobretudo à meia-noite o combustível circula longe das bombas, vendido discretamente, enquanto a cidade dorme e a necessidade continua acordada. Em Nampula, o cenário ganha outras camadas. O abastecimento é limitado. O transporte é pressionado. E quem vive longe do trabalho começa a fazer contas que não fecham: combustível ou emprego, deslocação ou sobrevivência.

Em Maputo, a crise transforma o quotidiano num labirinto. O transporte deixa de ser previsível. O Yango muda preços como o vento muda de direcção. E uma simples corrida de Albasine ao Aeroporto pode chegar a 700 meticais ou mais dependendo do dia, da hora e do silêncio do sistema. Há quem diga que a cidade aprendeu a respirar em escassez.

Mototáxis carregam três pessoas onde caberiam duas. Cada passageiro paga 300 meticais por distâncias que antes eram banais. E o que era deslocação torna-se sobrevivência. No meio disso tudo, há uma pergunta que insiste em não calar: onde termina a crise e onde começa o aproveitamento? Porque o combustível existe. Mas não circula para todos da mesma forma.

Há quem diga que o produto não desaparece apenas muda de direção. Que sai das bombas e entra em circuitos paralelos, onde o preço não é fixo e a regra não é escrita. Angoche há um mês. Moma há três meses. Nampula hoje. Maputo sempre em cadeia.

E enquanto isso, o custo de vida sobe em silêncio, como uma maré que ninguém controla. Famílias apertam. Comida falta. Trabalho perde-se. E a vida vai sendo empurrada para um limite onde tudo parece negociável até aquilo que deveria ser básico. Talvez a crise não seja apenas de combustível. Talvez seja de confiança. Porque quando o essencial deixa de ser previsível, a sociedade começa a viver como se estivesse sempre a abastecer no escuro.

 

 

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