OPINIÃO
Colhe os frutos do combate pela paz: Moçambique e o sentido do hino que ainda nos pede coragem
Há palavras que se cantam. Outras que se vivem. E há aquelas que ficam ali, entre a voz e o coração, à espera de serem cumpridas. “Pátria Amada”, o hino nacional do nosso país, está cheio dessas palavras. Carrega a história de um povo que lutou de peito aberto, com enxadas, panfletos e poemas, azagaias, etc, não apenas para vencer uma guerra, mas para conquistar um país. E agora, cinquenta anos depois da independência, a pergunta ecoa com mais urgência: estamos a colher os frutos do combate pela paz?
Este hino, pela sua perspicácia, não é um enfeite para abrir cerimónias. É, ou deveria ser, o espelho mais honesto do que desejamos ser. E quando dizemos que a bandeira foi erguida com o suor dos heróis, lembramos que paz também é batalha. Que liberdade não foi presente, foi conquista. Que não houve feriado, mas sacrifício. O problema é que, com o tempo, esquecemos que manter a paz é outro tipo de combate, mais silencioso, mais difícil, mais traiçoeiro.
Porque hoje a paz corre o risco de ser apenas ausência de tiros. Mas não há verdadeira paz onde há fome. Onde há crianças sem futuro. Onde se morre à porta do hospital. Onde se vive sem direitos, ou com direitos dependentes do partido, do sobrenome ou apelido, da zona em que se nasceu, do sotaque mais sonante, da postura física que tem, do modo de se vestir em público, etc. A paz pela qual se lutou precisa de ser visível na mesa de cada família, no boletim de cada escola, no salário de cada trabalhador.
O povo moçambicano merece mais do que a memória da guerra. Merece os frutos do combate: justiça social, equidade, oportunidades para todos. Mas o que vemos, muitas vezes, é que os frutos caem sempre nas mesmas mãos. A promessa do Presidente de Daniel Chapo, “Vamos trabalhar de forma diferente para alcançarmos resultados diferentes”, ressoou com esperança no dia 15 de Janeiro de 2025. Muitos moçambicanos ouviram essa frase como um sinal de possível renovação, um novo ciclo político com mais ética, mais competência e mais entrega ao bem comum. Mas passado pouco tempo, o filme pareceu o mesmo: nomes repetidos, rostos já conhecidos, figuras que há décadas circulam de ministério em ministério, como se a governação fosse uma roda cativa de sempre os mesmos.
Então, que resultados diferentes se podem realmente esperar, se os métodos e os actores continuam os mesmos?
Governar de forma diferente começa por pensar diferente, incluir diferente, escolher diferente. Não é suficiente vestir um novo discurso com um fato velho. A juventude esperava ver mais juventude nos lugares de decisão. As mulheres esperavam mais representatividade real. Os moçambicanos esperavam mais rostos fora do círculo fechado do partido dominante mas, de novo, muitos ficaram de fora. E a OJM?
É legítimo o cansaço de um povo que ouve promessas recicladas por líderes reciclados. Porque não se muda o país com as mesmas fórmulas, nem se cura uma nação doente com os médicos que assistiram o agravamento da doença.
Isto não significa negar o valor da experiência política, mas experiência que não produz transformação torna-se apenas permanência. E permanência sem prestação de contas vira estagnação.
Se Daniel Chapo quiser, de facto, “resultados diferentes”, terá de enfrentar o desafio mais difícil: romper com o conforto da continuidade vazia. Terá de se cercar de pessoas novas, ideias novas, práticas novas. Terá de mostrar, com actos e políticas, que não é apenas mais um a decorar o discurso da mudança enquanto mantém os alicerces da velha ordem.
O povo moçambicano não precisa apenas de palavras novas, precisa de coragem política para fazer diferente. Porque enquanto os gabinetes continuarem a proteger os mesmos nomes e a excluir os talentos que vivem fora do circuito do poder, os resultados serão os mesmos de sempre: promessas no ar e realidades no chão. A mudança só acontece quando o discurso bate com a prática. E, por enquanto, essa prática ainda está em dívida com o povo.
Que o suor dos heróis irrigou o campo de poucos. E que a bandeira, embora erguida pelo povo, é hoje agarrada por interesses que não falam a língua da maioria.
E o hino vai-nos dizendo, verso após verso, que fomos grandes. Que fomos corajosos. Que enfrentámos canhões. Sim. Mas agora, enfrentamos outros inimigos: a corrupção que engole sonhos, o clientelismo que fecha portas, o desleixo que mata lentamente a confiança. E para esses, não basta memória. É preciso acção. É preciso governar com o povo no centro, não como plateia, mas como protagonista.
Moçambique, nossa terra gloriosa, ainda tem muito a dar. Mas só dará quando todos tiverem lugar à mesa. Quando o camponês, a enfermeira, o pescador, o estudante, o pedreiro, o artista, sentirem que fazem parte da construção nacional. Quando a paz for mais do que um silêncio imposto, e passar a ser uma harmonia vivida. Uma convivência com dignidade. Um futuro sem medo.
Por isso, ao celebrarmos mais um aniversário da nossa independência, não basta hastear a bandeira. É preciso cuidar do campo onde os frutos da paz devem crescer. Adubar com políticas públicas sérias. Regar com ética. Proteger com cidadania activa. Porque não há glória num país onde o povo canta mas não come. Onde a terra é fértil mas o estômago está vazio. Onde se ergue um hino bonito mas se vive num silêncio triste.
Colher os frutos do combate pela paz não é apenas um direito, é uma urgência. Porque se não os colhermos juntos, alguém os colherá por nós. E o que resta será só folha, só sombra, só promessa.
Que o hino continue a ser cantado. Mas que também seja vivido. Com coragem. Com verdade. E com a memória dos heróis a servir não de escudo, mas de farol. E mais não disse!