OPINIÃO

Cidade submersa com elevada escassez de água

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Em Nacala, o galo não canta para acordar o dia, ele canta para avisar que a bicha já vai longa. Às três da manhã, quando o Oceano Índico ainda é um tapete escuro e silencioso, a cidade não dorme. Ela rasteja. Ouve-se o som metálico dos recipientes vazios batendo uns contra os outros uma orquestra de plástico e zinco que ecoa pelas encostas de cimento e areia. água não corre  ela é esperada. Esperada com baldes alinhados, com ouvidos atentos ao som que quase nunca vem, com a esperança guardada para a madrugada. Quando a torneira geme, é festa curta; quando se cala, começa o cansaço antigo.

A água, que deveria ser simples, virou privilégio. Há casas onde ela só aparece de visita, chega sem avisar e vai embora depressa. Quem pode compra, quem não pode carrega. Carrega nas costas, na cabeça, na paciência. E assim o dia começa pesado antes mesmo do sol subir.

A falta de água não seca só os canos, seca o humor, a saúde, a dignidade. Lavar as mãos vira escolha, tomar banho vira cálculo, cozinhar vira desafio. Enquanto isso, discursos escorrem fáceis, mas a água não.

E o mais injusto é saber que a cidade cresce, o porto cresce, os prédios sobem — mas a água continua pequena, insuficiente, falhando. Como se o desenvolvimento tivesse esquecido de beber água também.

Nacala resiste. Sempre resistiu. Mas resistir não deveria ser rotina. Água não é favor, não é milagre, não é luxo. É direito. E enquanto ela faltar, a cidade continuará esperando… com os baldes vazios e a esperança cheia.

A “bicha das três” é uma instituição cruel. Não é apenas uma fila é um confessionário a céu aberto sob o sereno. Ali, mulheres embrulhadas em capulanas coloridas, que o escuro torna cinzentas, partilham as mesmas olheiras. Há um código de ética silencioso na bicha: o balde vazio marca o lugar, mas é o corpo presente que garante a sobrevivência.

Mas, para quem segura a asa de um bidão de 20 litros, a água no cano ainda é uma promessa que tarda a jorrar com força. A modernização é um gráfico bonito na televisão. a realidade, porém, é a pressão que não chega, o filtro que entope e a torneira que tosse ar antes de cuspir o líquido precioso.

Na bicha , discute-se a vida. Fala-se do preço do pão, da escola dos miúdos e da ironia de viver numa cidade portuária, rodeada por uma imensidão azul que não se pode beber. É um exercício de paciência bíblica. Quando o primeiro fio de água surge, tímido e morno, há um suspiro coletivo. Cada litro conquistado é uma vitória contra o cansaço.

Às seis da manhã, quando o sol começa a queimar o horizonte, as mulheres regressam a casa com o peso do mundo à cabeça. Caminham eretas, equilibrando o sustento da família em bacias, enquanto a cidade “oficial” desperta. Nacala quer ser o futuro, quer ser o porto de entrada do desenvolvimento, mas enquanto a bicha das  existir, o seu coração continuará a bater ao ritmo lento e penoso de uma gota que cai num balde vazio. A sede, em Nacala, ainda é a despertadora mais pontual que existe.

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