ECONOMIA
Carta de condução à venda em Nampula: Denúncias nas redes sociais levam governador a reunir com o INATRO e escolas de condução
Denúncias que circularam nas redes sociais nos últimos dias sobre a alegada cobrança ilegal de 5.000 meticais nos exames práticos de condução em Nampula levaram o Governador da província a convocar uma reunião com escolas de condução, o Instituto Nacional dos Transportes Rodoviários (INATRO) e inspectores, num encontro em que representantes do sector reconheceram a existência de práticas de corrupção.
As denúncias, partilhadas por candidatos à carta de condução, indicam que o pagamento do valor estaria a ser tratado como uma condição informal para aprovação, sob pena de reprovação, independentemente do desempenho no exame.
Segundo os relatos divulgados nas redes, jovens e cidadãos desempregados dizem ver o sonho de se tornarem motoristas profissionais bloqueado por não terem condições financeiras para pagar o valor exigido. As publicações tornaram-se virais e colocaram o tema no centro do debate público na província.
Durante a reunião, representantes das escolas de condução reconheceram a existência de práticas ilícitas no sector e admitiram fragilidades no controlo dos exames práticos, situação que, segundo os participantes, tem permitido a continuidade de esquemas de corrupção.
“Há corrupção sim, não digo que é mentira, é verdade. Agora temos que trabalhar juntos contra essa corrupção, porque suja a instituição e suja o governo também. Essa reclamação já vem há bastante tempo”, admitiu Mussagy Bay, director da escola de condução Auto Mobay Limitada.
O responsável acrescentou que houve avanços na componente teórica, mas que a prática continua vulnerável.
“Antes era apenas a teoria, e agora é usado o computador, e o exame é online. O candidato faz o exame e imediatamente sai o resultado. Precisamos combater a corrupção na prática também. A situação é difícil, porque o instrutor e o examinador do INATRO estão envolvidos. Já chamamos atenção aos examinadores, mas alguns não ouvem. Estamos tentando unir os nossos directores”, acrescentou.
Outro director de escola de condução, que preferiu não ser identificado, também reconheceu o problema, mas disse que é difícil apontar responsabilidades individuais.
“Realmente existe, mas não é possível apontar o dedo e dizer que vem de algum lugar específico. Talvez formando uma associação de escolas possamos identificar e punir os insensatos”, afirmou.
Na mesma ocasião, algumas escolas denunciaram ainda que existem estudantes que tentam aliciar instrutores e examinadores, recorrendo a práticas de corrupção e até chantagens.
Governador diz ter provas e apela a denúncias
O Governador de Nampula, Eduardo Abdula, afirmou que tem recebido várias denúncias sobre irregularidades nas escolas de condução e disse ter informações sobre instituições envolvidas em práticas corruptas, mas apelou para que os candidatos façam denúncias formais e mostrou-se disponível para trabalhar com as escolas no combate ao problema.
O Governador manifestou preocupação com o impacto social da situação e orientou para a adopção de medidas urgentes para travar os esquemas, proteger os candidatos e restaurar a credibilidade do processo de emissão de cartas de condução.
“Este não é um julgamento, é para nós encontrarmos uma solução. Vocês não ficam chateados quando dizem que há um bom ou um mau governador em Nampula? Isto afecta todos. O mesmo acontece com o instrutor, o examinador ou o inspector: quando faz, faz em nome daquela escola e em nome de toda a classe. Por causa provavelmente de um, estamos todos a ser postos no mesmo saco. Mas se estivermos organizados e ouvirmos isso, rapidamente podemos tirar essa culpa que não é de todos”, afirmou Eduardo Abdula, no encerramento da reunião.
Histórico de denúncias no INATRO
O actual escândalo surge num contexto em que o INATRO em Nampula tem sido, de forma recorrente, associado a denúncias de corrupção e instabilidade na liderança.
Só em 2025, dois delegados provinciais cessaram funções, num ambiente marcado por acusações, conflitos internos e questionamentos sobre a gestão do sector. Posteriormente, tomou posse um novo delegado, cuja nomeação também gerou polémica, por alegadamente não reunir os requisitos exigidos, sendo descrito, em círculos locais, como “o homem certo” para o cargo.
Apesar das mudanças, as denúncias indicam que os problemas não foram resolvidos e que os esquemas terão continuado, culminando agora num escândalo que ganhou dimensão pública, impulsionado pelas redes sociais.
Diferentemente de situações anteriores, desta vez as redes sociais funcionaram como principal espaço de denúncia, tornando públicos testemunhos de candidatos e expondo práticas que, segundo os relatos, vinham a ocorrer há algum tempo de forma silenciosa.
A pressão pública levou o Governo provincial a reagir, transformando um problema antes tratado de forma dispersa num caso institucional, agora assumido e debatido ao mais alto nível provincial. Vânia Jacinto