OPINIÃO

Avançamos… mas para trás

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Num comício lotado em Chimbeta, o administrador do distrito subiu ao púlpito, estufou o peito e gritou:

— “Compatriotas! Avançamos com passo firme! A saúde está a melhorar! As ambulâncias já não chegam com atraso!”

Mal acabou de falar, um jovem desmaiou ali mesmo na frente. Calor, fome ou talvez só cansaço de ouvir promessas.

O povo gritou:

— “Chamem a ambulância!”

Depois de vinte minutos sem sinal de sirene, alguém sugeriu:

— “Talvez seja melhor chamar o carro de som do comício… esse pelo menos apareceu!”

Um senhor idoso, com voz rouca e sabedoria de quem já viu muito, comentou:

— “Os discursos aqui correm mais rápido que as ambulâncias. Só não curam ninguém.”

No fim, o jovem foi levado numa motorizada emprestada, e o comício seguiu como se nada fosse. Afinal, naquele país, a marcha é sempre em frente… só que o povo está virado para trás.

É isso mesmo. Dizem-nos sempre que estamos a avançar. Que há crescimento económico, que há progresso, que Moçambique está de pé. Há inaugurações com pompa, há cortes de fitas com sorrisos bem treinados, há placas a anunciar projectos que, na prática, não chegam a meio do caminho. Mas no chão onde vive o povo, a história é outra: a marcha nacional parece uma dança ao contrário. Um passo para frente, dois para trás.

A ironia é gritante. Vemos o país a celebrar marcos de desenvolvimento, enquanto as comunidades vivem marcadas por retrocessos. As escolas continuam sem carteiras. Os hospitais sem medicamentos. As vias continuam mais rasgadas que o tecido social. O progresso, afinal, está onde? No papel? Na maqueta? Ou no teleponto lido em cerimónias televisadas?

É como se estivéssemos presos numa vitrine de vitórias imaginárias. Mostra-se muito e muda-se pouco. Enquanto isso, o povo caminha descalço sobre promessas antigas. A marcha continua, mas sem ritmo, sem direcção clara, e cada vez mais longe do destino sonhado no dia da independência. O passado virou referência, o presente é resistência e o futuro… esse anda escondido.

A realidade é teimosa. Por mais que se tente maquilhar com discursos bonitos, ela aparece — no buraco da estrada, no posto de saúde sem pessoal, na escola onde o professor falta porque também precisa vender algo ou fazer taxi-mota para sobreviver. Avançamos, dizem. Mas as mães ainda morrem por partos que deviam ser simples. Os jovens ainda fogem do país não por turismo, mas por sobrevivência. Que tipo de avanço é esse que nos empurra para o desespero?

O povo já não quer palmas a cada pedra lançada, quer resultados concretos. Já não quer cortes de fita, quer corte no sofrimento. Já não se impressiona com viaturas novas dos dirigentes, quer ver a ambulância da aldeia chegar em tempo útil. Já não aceita que se avance para trás, enquanto o presente se desmorona devagarinho diante dos olhos de todos.

E é nesta marcha truncada que o povo vai perdendo a paciência. Porque até a esperança tem limite. A marcha nacional devia ser sinónimo de transformação colectiva. Mas hoje, para muitos, é apenas um som de fundo que contrasta com a batida da realidade. Cada dia que passa sem resposta concreta é um dia a mais de cansaço acumulado.

Por isso, é urgente parar. Não para desistir, mas para reavaliar o rumo. Porque só se pode avançar de verdade quando se pisa firme, com os pés no chão e os olhos abertos. O país precisa de líderes que caminhem com o povo, não apenas à frente dele com microfones e câmaras. Precisa de uma marcha onde todos contam, do pescador ao engenheiro, da vendedora informal ao estudante. Uma marcha que seja feita com os dois pés: o da dignidade e o da justiça.

Moçambique merece mais do que passos vazios. Merece passos seguros. Merece progresso que se sente, que se vive, que se vê. E isso só será possível quando deixarmos de marchar para trás em nome de um avanço que só existe no papel timbrado do poder. E mais não disse!

 

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