OPINIÃO
As manas “empoderadas”
O que está a acontecer nas nossas comunidades já passou da linha do aceitável. Estamos a assistir ao nascimento de um novo tipo de “poder” mal digerido, mal vivido e mal usado principalmente nas grandes cidades: as chamadas manas empoderadas. Não, não estou a falar das mulheres que lutam, estudam, crescem e se erguem pela força do próprio mérito. Essas merecem aplauso. Falo das outras as que confundiram empoderamento com autoritarismo, conquista com arrogância, trabalho com licença para humilhar quem aparece no caminho.
Nos bairros, nas filas do chapa, nos locais de trabalho, nos lares… todos nós já vimos uma mana dessas. É aquela que, depois de conseguir um emprego estável, um cartão de banco e uma assinatura bonita no final dos documentos, transforma-se num pequeno governo dentro de casa, na sociedade, ate no seu local de trabalho. Não aceita conversa, não aceita opinião e muito menos aceita ser contrariada. Para ela, “empoderamento” virou senha de “eu mando, tu obedeces”.
Há manas que, quando recebem o salário no fim do mês, não veem apenas números. Veem um pedestal. Uma plataforma de superioridade. Uma permissão para tratar o parceiro como subordinado e os homens da comunidade como atrasados. Deixaram de acreditar na parceria e decidiram instalar a “lei e ordem” dentro de casa, como se o lar fosse quartel-general e o marido fosse recruta.
E o mais curioso ou triste é que muitas dessas manas falam em igualdade, mas na prática fazem exactamente o contrário. Não querem equilíbrio; querem vingança. Não querem companheirismo; querem domínio. Não querem construir; querem ser temidas. Como se o mundo lhes tivesse uma dívida antiga e agora fosse a hora de cobrar com juros.
Nas conversas dos bairros, escuto cada história… Há maridos expulsos do próprio lar por “não acompanhar o nível”. Há relacionamentos transformados em sala de interrogatório. Há homens que têm medo até de respirar alto porque a mana é que “traz o pão” e portanto dita as regras. Há casamentos que se tornaram pequenas ditaduras domésticas. E pior: há crianças a crescer a achar que respeito é grito, que amor é humilhação e que autoridade é levantar o dedo no meio da sala.
É claro que existem homens que abusam, maltratam, controlam e diminuem as mulheres e esses devem ser enfrentados sem hesitação. Mas hoje não estou a narrar sobre isso. É sobre o desequilíbrio que agora começa a surgir do outro lado, alimentado por uma interpretação torta do que deveria ser liberdade feminina. Porque empoderar não significa esmagar. Significa caminhar lado a lado. Significa autonomia com responsabilidade, não independência com desprezo.
A mana empoderada perdeu o rumo. Ela esqueceu que força não se mede pelo volume da voz, mas pela firmeza do carácter. Que respeito não se conquista com ameaças veladas, mas com gestos coerentes. Que igualdade não se constrói com vingança, mas com compreensão. Que salário não substitui humanidade, e diploma não compra humildade.
Nas nossas sociedades de hoje, a pressa em parecer forte está a destruir a verdadeira força. Estamos a criar uma cultura onde muitos acreditam que amor é competição. Que lar é campo de batalha. Que casamento é disputa de poder. E, pior ainda, muitos brigam para serem vistos como líderes quando dentro de si mesmos não conseguem liderar sequer as próprias emoções.
As manas empoderadas são fruto de frustrações antigas, sim. De desigualdades, injustiças e dores que o nosso país ainda não resolveu. Mas transformar-se no opressor não cura opressão nenhuma. Só reverte o papel e prolonga a ferida.
No final das contas, o empoderamento verdadeiro continua silencioso: é a mulher que se levanta sem pisar ninguém; que conquista sem precisar humilhar; que brilha sem apagar o companheiro; que lidera sem precisar gritar. A que sabe que a maior autoridade é a serenidade. A que entende que lar não é tribunal, é abrigo.
Se quisermos uma sociedade saudável, não podemos permitir que o empoderamento seja sequestrado pelo ego, pela raiva ou pela sede de controle. É preciso devolver-lhe o seu verdadeiro sentido: liberdade com equilíbrio, dignidade com humildade e progresso com humanidade. Porque, no fim do dia, mana nenhuma vence sozinha e ninguém é grande por tornar o outro pequeno.